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Páginas: 20 (4905 palavras) Publicado: 7 de junho de 2015
GÊNERO E PODER NA FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO, EM
BELO HORIZONTE1
Dalva Maria Soares2
Universidade Federal de Santa Catarina
dalvamariasoares@yahoo.com.br
Maria de Fátima Lopes3
Universidade Federal de Viçosa
mflopes@ufv.br
Introdução

A sociedade brasileira sempre se mostrou profundamente festeira. Esse festar nacional
foi registrado por viajantes e estudiosos que se surpreendiam com aefervescência religiosa
aqui existente. Desde a colonização, era comum o espanto de viajantes europeus não ibéricos
que, quando aqui chegavam, viam festas “todo o tempo, por toda parte, e por todos os
motivos” que “misturavam tudo e todos”. Não foram poucos os depoimentos de viajantes a
respeito da representação cerimonial dos nossos festejos, populares ou oficiais, que
caracterizava notáveldiferença entre a herança de nossas festas de rua e a das culturas
americanas de origem anglo-saxã:
No Brasil, por toda parte encontra-se a religião ou o que receba tal nome.
Nada se pode fazer, nem observar sem deparar-se com ela de uma forma ou
de outra. É o mais importante detalhe da vida pública e privada que aí temos.
As festas e procissões constituem os principais esportes e passatempo do
povo, eneles os próprios santos saem de seus santuários, juntamente com os
padres e a multidão, (e) participam dos folguedos gerais. Não levar tais fatos
em consideração seria omitir os atos mais populares e esquecer os
protagonistas favoritos do drama nacional (EWBANK, 1976, p.18).

O olhar estrangeiro era seduzido não só pelas grandes manifestações, como os
carnavais do Rio de Janeiro ou da Bahia, mastambém pelas inúmeras “festas minúsculas”
espalhadas por todo País, nas quais “práticas africanas, indígenas e cristãs mesclam-se

1

Essa comunicação traz alguns dos resultados obtidos na minha dissertação de mestrado “Salve Maria(s):
mulheres na tradição do Congado em BH, MG”, defendida no PGED/UFV, sob a orientação da professora Maria
de Fátima Lopes, em dezembro de 2009. Outras duas versões destetrabalho foram apresentadas na 27 Reunião
Brasileira de Antropologia, ocorrida de 1 a 4 de agosto de 2010, em Belém, PA e no Seminário Internacional
Fazendo Gênero 9, ocorrido de 23 a 26 de agosto de 2010, em Florianópolis, SC.
2
Doutoranda em Antropologia Social pela UFSC, mestra em Economia Doméstica pela UFV (2009) e graduada
em Ciências Sociais pela UFMG (1995).
3
Professora Associada doDepartamento de Ciências Sociais da UFV.

segundo químicas diferentes”. São festas que funcionam como “orifícios” por onde rompem
a trama exterior da sociedade brasileira, “como se houvesse uma intenção de lembrar que a
vida não se fecha em uma única dimensão imposta pela Rentabilidade ou Organização.”
Entendê-las só é possível se se “ingressar no lance, ainda que grotescamente, como o nosso
relesarrastar de pés e nossos corpos contraídos” (DUVIGNAUD, 1983, p.21).
Esse caráter brasileiro associado à festa, muitas vezes aponta para uma concepção de
alienação, displicência, tendência ao descaso com a lei e a ordem, e é comum ouvir
afirmações indignadas sobre o caráter nacional com opiniões frequentes de que aqui, tudo
acaba em pizza, em carnaval ou em festa (AMARAL, 1998).
No entanto, se afesta é um forte elemento constitutivo do modo de vida brasileiro, não
se pode esquecer de que ela se dá de modos e em fundamentos diferentes para os vários
grupos que a realizam. Para Amaral (1998), é necessário entender de que tipo de festa se fala,
como ela é produzida, com que finalidade e qual o significado para os que a produzem.
Duvignaud (1983) chama a atenção para o fato de que o principalobstáculo para a
compreensão da festa diz respeito a uma percepção social inteiramente dominada pelas
noções de funcionalidade, de utilidade, pelo espírito da rentabilidade, característicos do
Ocidente industrializado. Segundo o autor, a epistemologia adotada nas Ciências Sociais para
analisar experiências como o sagrado, o jogo, o prazer, foi “cimentada” pelas categorias
mentais da economia de...
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