A morte e a morte de quincas berro d'água

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  • Publicado : 26 de fevereiro de 2013
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A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D’ÁGUA
A narrativa de A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água ambienta-se em Salvador, na época atual, e é apresentada por um interessante narrador em primeira pessoa, pois que é dotado de onisciência. Tudo gira ao redor de Joaquim Soares da Cunha, mais conhecido como Quincas Berro d’Água, apelido gerado pela reação explosiva e indignada ao ter bebido, porengano, água no lugar de cachaça, sua bebida predileta. Por aí já se pode imaginar de que tipo de personagem se trata. Essa idéia pode ser reforçada pelos apelidos que havia recebido: Rei dos Vagabundos da Bahia, O Cachaceiro-Mor de Salvador, O Vagabundo por Excelência, O Filósofo Esfarrapado da Rampa do Mercado, O Rei da Gafieira, O Patriarca da Zona do Baixo Meretrício.
No entanto, nem sempreteve tais predicados. Dez anos antes do início da narrativa, Quincas era funcionário exemplar da Mesa de Rendas Estadual. Levava uma vida respeitável, mas que lhe era sufocante, graças às pressões de uma formalidade vazia e inútil. O rompimento ocorre quando sua filha, Vanda, está para se casar com Leonardo Barreto, uma reprodução fiel do estilo de vida de Joaquim; a diferença é que o jovem estásatisfeito com o que tem. Comunicado o noivado e apresentado o rapaz, Joaquim qualifica-o como um coitado. Vanda e Otacília (sua esposa) têm uma reação que é um misto de indignação e incompreensão. Inconformado, Joaquim chama o futuro genro de bestalhão e sua esposa (tão apegada às etiquetas) de jararaca. Sai de casa e transforma-se no Quincas Berro d’Água. Decai socialmente, pelo menos aos olhos deuma sociedade apegada à formalidade, mas encontra sua felicidade em meio a gente da classe baixa, como marinheiros, prostitutas, capoeiristas.
Vindo da classe alta e identificando-se com o baixo estrato, acaba-se tornando o “pai da gente”, no dizer constante de uma das personagens. Por um lado isso revela um paternalismo a idealizar as diferenças sociais gritantes na sociedade baiana. Por outro,serve para enxergar nele um alter ego de Jorge Amado, escritor vindo da elite e que se envolve com o tom, a linguagem, o estilo e o gosto popular. Ambos, criador e criação, acabam mal vistos pelos “senhores sérios e conceituados”. Assim, o destino de um mistura-se ao de outro.
A narrativa inicia-se com a notícia do óbito de Quincas, que se tinha dado de forma fenomenal: havia morrido duas vezes, oque o colocava entre as inúmeras anedotas exóticas que circulavam entre o povo.
Informada por uma padre, sua família, liderada por Vanda (que passa a encarnar o papel repressor da já falecida mãe), resolve cuidar do enterro, na crença de que estava recolocando Quincas de volta ao eixo. Era uma aparente vitória sobre dez anos de completa vergonha a que tinham sido submetidos. Era o fim daquelairreverência, ainda presente no sorriso desafiador e pelo dedão do pé furando a meia do cadáver. Joaquim Soares da Cunha voltaria, por meio de vestes mais adequadas, sóbrias, formais, compradas especialmente para o funeral.
Aliás, o acerto do cerimonial foi um dos aspectos que mais degradou na narrativa a imagem dos parentes, pois não queriam ter sua rotina quebrada. Leonardo estava mais preocupadoem não perder o expediente na repartição e não passar vergonha com a notícia. Chora com o que foi gasto para o enterro, assim como Eduardo, irmão do morto, também preocupado com sua firma. A única que dá atenção um pouco mais digna é Vanda, mas aceita a mediocridade do ritual com medo de que algo mais pomposo levantasse a atenção e expusesse a família a uma nova série de comentários vergonhosossobre o passado do pai.
No entanto, esse domínio é aparente. Em primeiro lugar porque, mesmo de paletó e gravata, mesmo nas vestes da formalidade, o defunto não abandonou seu sorriso de irreverência, o que deixa Vanda agoniada. Seu desespero aumenta quando o falecido começa a, fantasticamente, dizer desaforos como “jararaca”, “saco de peidos” e “bestalhão”.
Além disso, a notícia do falecimento...
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