Morte e luto na modernidade

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UFMG
2012/2
Ciências Sociais

Morte e Luto na Modernidade

Consoada
“Quando a indesejada das gentes chegar
(não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo.
Talvez eu sorria e diga:
- Alô iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(a noite com seus sortilégios)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com “cada coisa em seu lugar.” (BANDEIRA, 2005)Obviamente, morre-se e sempre se morreu em todos os lugares e tempos, mas os significados deste acontecimento, as explicações utilizadas, e as formas que os vivos devem e podem se portar diante da morte e dos mortos é incrivelmente diversa, mas, se essas várias mortes têm indubitavelmente algo em comum, o fato de que as formas de pensar e tratar a morte são, em última instância indicativos doque se pensa sobre a vida. O objetivo deste ensaio é lançar o olhar para as mudanças que operam no Ocidente para que a morte tome as características que assume no período moderno.

1. Negação

Ariés nos informa que as atitudes perante a morte se transformaram profundamente através da idade média até o século XX. Na Idade Média, a morte era tida como um acontecimento normal, público, de formaque a morte era encarada com bastante naturalidade, existindo inclusive um ideal de boa morte, em que o moribundo tomaria consciência de sua própria morte, reuniria seus familiares e pessoas próximas e se despediria, sendo que o luto, que se segue à morte tem características públicas e solenes, o que fazia com que a morte repentina fosse muito temida, “não só porque não permitia o arrependimento,mas porque privava o homem de sua própria morte” (ARIÈS, 1977, p.144). Na visão deste autor, a morte da Idade Média pode ser considerada uma morte domesticada, ou seja, é algo cujo acontecimento além de esperado, conta com toda uma técnica social significação e expressão da dor causada pela perda de uma pessoa querida.
Não só o morrer era um ato público no mundo medieval como não havia umaseparação muito clara entre o espaço de habitação dos vivos, e o espaço de descanso dos mortos, sendo que é lícito dizer que havia um convívio mais intimo entre vivos e mortos, uma vez que eles habitavam os mesmos espaços sendo que os vivos da idade média “estavam tão familiarizados com os mortos como com a sua própria morte” (ARIÈS, 1977, p.30). O cemitério só surge como um local separado para osmortos por volta do século XVIII, quando a morte e os mortos são “banidos” do convívio social.
Com o passar dos séculos, ocorre uma mudança de mentalidade em que a morte não figura mais como um acontecimento público e solene, paulatinamente a morte se torna um acontecimento solitário, interdito, em que nem sequer se informa ao moribundo a iminência de seu óbito:
“Quanto mais se avança no tempoe se sobe na escala social menos o homem sente em si mesmo a proximidade da morte, mais necessita se preparar para ela e, por consequência, mais necessita de sua família” (Id, p.146)
É como se o moribundo tivesse fosse expropriado da consciência de sua própria morte e não mais a protagonizasse. Não apenas o moribundo é privado do conhecimento a respeito de seu estado, como esta informação tambémnão lhe interessa, a boa morte a partir da segunda metade do século XIX é a morte súbita, prefere-se morrer dormindo, de forma limpa e eficiente. O relato de Beauvoir a respeito do estado de saúde de sua mãe é bastante ilustrativo dessa vontade de não saber que a morte se aproxima:
“... mamãe teria vivido dois ou três anos mais. Mas teria conhecido ou, pelo menos, suspeitado da natureza de seumal e passado o fim de sua existência apavorada” (BEAUVOIR, 1984, p.93)
A partir deste relato pode-se dizer que no ocidente moderno a consciência da morte é pior, ou pelo menos mais amedrontadora do que a própria morte, como se ao tomar consciência da iminência de seu fim, o indivíduo experimentasse um mal-estar pior do que a morte, “o doente nunca mais deve saber (salvo casos excepcionais)...
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