Entrevista fhc sobre 1968

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 12 (2959 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 31 de março de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
1968 é antídoto contra intolerância mundial, diz FHC
Em entrevista ao G1, ex-presidente fala sobre a herança dos movimentos sociais de 1968. Para ele, racismo contra imigrantes leva Europa a um retrocesso.
A guerra do Iraque e a onda anti-imigração na Europa têm um denominador comum: são dois fenômenos de intolerância do mundo moderno. Ambos contra o espírito dos jovens revolucionários de 1968,afirmou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil, em entrevista exclusiva ao G1 na qual falou sobre as quatro décadas do ano em que "tudo parecia estar mudando".

"O que acontece na França hoje é o mesmo problema dos Estados Unidos nos anos 60: a discriminação. Há muitos muçulmanos na Europa hoje, e os europeus começam a definir a pessoa pelo sangue. Isso é racismo",afirma FHC, fazendo uma comparação com os Estados Unidos de George W. Bush. "O mundo atual tem esse desafio: ou aceita a diversidade ou fica a intolerância. Se não [os líderes] farão como o Bush, que invadiu o Iraque para implantar a democracia americana. Não dá certo, vai ter que aceitar que há pedaços do mundo que não são americanos. E não serão nunca."
O ano de 1968, tema desta reportagemespecial do G1, foi agitado em todo o mundo. Nos Estados Unidos havia movimentos pacifistas (contra a guerra do Vietnã) e contra o racismo. Na Europa, estudantes se rebelaram contra as autoridades. E no Brasil os universitários organizaram passeatas contra a ditadura militar. FHC, hoje com 76 anos, foi um espectador privilegiado de 1968. Estava na França em maio, quando ocorreram os confrontos armadosentre estudantes e a polícia. Inclusive deu aulas para um dos principais líderes do movimento, Daniel Cohn-Bendit, na Universidade de Nanterre -berço deste movimento social. E voltou ao Brasil no final do ano, pouco antes da decretação do AI-5, ato da ditadura que suprimiu as liberdades individuais e sufocou os movimentos políticos da oposição.

Nesta conversa, FHC criticou recente declaração dopresidente francês, Nicolas Sarkozy, de que é preciso enterrar 68 e sua herança de contestação aos valores vigentes. "O mundo é maleável, deixe cada um viver ao seu modo. Penso o oposto do Sarkozy. Não tem que enterrar 68, tem que reviver."

Leia a seguir os principais trechos da entrevista, realizada na última terça-feira (6) na ampla sala do apartamento de FHC, em Higienópolis, com uma belavista para o arborizado bairro de Perdizes, em São Paulo.
G1 - Qual é a herança de 68 no mundo de hoje?
Fernando Henrique Cardoso - Os valores mudaram. Veja a igualdade de gêneros. Temos várias presidentes mulheres no continente e uma candidata a presidente nos EUA (a democrata Hillary Clinton disputa a indicação do partido). Houve um avanço grande a essa reivindicação. O formalismo na academiafrancesa era insuportável, havia uma distância enorme entre alunos e professores. Antes de o professor entrar na sala entrava um bedel com um bastão, batia no chão e anunciava o professor. Todos as alunos ficavam em pé. A França era uma sociedade bloqueada. Desbloqueou. Houve modificações também na vida política. Os verdes passaram a ter maior papel no mundo, o que foi indiretamente uma herançade 68. Nos EUA houve um movimento muito forte, mas por causa da guerra do Vietnã e da questão racial. Em 68 houve a ofensiva do Tet (ataque dos vietcongs em 31 de janeiro durante a Guerra do Vietnã). Eu via pela TV na França imagens incríveis da matança, e os americanos também viram isso. A resposta foi enorme, com protestos contra a guerra e contra o racismo.

G1 - Quais as principaisdiferenças entre 68 na França e no Brasil?
Cardoso - Voltei ao Brasil em outubro de 68, vim fazer um concurso de cátedra. Ganhei a cadeira, mas me aposentaram seis meses depois. Aqui na rua Maria Antonia (onde ficava a faculdade de sociologia da USP) estava tudo em clima de 68. Aqui era a luta contra a ditadura. Já na França se falava "é proibido proibir", falava-se em ser libertário. Eram problemas...
tracking img