O ator narrador

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  • Publicado : 23 de abril de 2013
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“Graças a ele, entendi que o mundo da escrita não dependia de Londres nem de Milão, mas girava em torno da mão que escrevia, no lugar em que ela escrevia: aqui está você – aqui é o centro do universo”
Amos Óz



O ATOR NARRADOR


“Recontar é sempre um ato de criação”
Ecléa Bosi


Tenho mania de juntar cacarecos, pequenos objetos, retalhos, pedaços de lã, diáriosvários, começados e nunca acabados - o parto da Manuela, sonhos, idéias de espetáculos, esboços de cenas e assim por diante. Mania da Vó Maria que não jogava nada fora e ia alinhavando, peça por peça, criando um grande cordão guardado na gaveta. “Isso um dia pode servir para alguma coisa...” Esses guardados me ajudam a criar raízes, a mapear um caminho percorrido. Olhar para eles me liberta de mim mesmaporque os recrio a cada novo contato. Ao mesmo tempo, me imprimem significado: por que guardei este e não aquele? Quando remexo nesse baú, o tempo passa gota a gota, espremido, a percepção se alargando. Alguns objetos jogo fora, perderam a cor, outros resistem e retornam para o seu lugar, lustro renovado e dividindo espaço com novas companhias.
O mesmo faço com imagens, lembranças,memórias vividas. Revisito-as. Depois tenho dúvidas sobre sua filiação. Eu as vivi ou tomei emprestado? De qualquer modo são minhas.
Descobri que só sei falar do que é meu. Daquilo que me perpassou. Talvez por isso guarde tanta coisa para não correr o risco de ficar muda. Tenho medo do vazio, de nele me perder, por isso o busco e dele fujo.
Encontro Larrosa[1] que me fala sobre o “saber daexperiência” e sinto um novo estralo, “é sobre isso que quero narrar!”. Desse lugar miúdo, “miguilim”, que quero lançar o olhar e alargar, alargar, expandir. E assim chegar ao outro e provocar. Quero falar do que me é próximo, próprio, que dele só eu mesma sei e desse lugar ninguém mais pode olhar.


Olha, agora!
Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudonovo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... (ROSA, 1984:139-140).


O ator como um narrador de experiências. Um misto de “camponês sedentário” e “marinheiro comerciante”. O primeiro, sem sair dopaís, conhece suas histórias e tradições; o segundo, viajante por profissão, tem muito a contar sobre suas andanças. Ambos têm experiência, seja o vivido em profundidade, de raiz forte, seja a pluralidade, vivida em goles dispersos. O fato narrado se transformando em saber adquirido, fruto da experiência. O vivido como formador das histórias narradas.
Experiência, narração e informação.Imagem e memória. O ator que se propõe a escrever sai da cena para integrar outros papéis, o de narrador de uma experiência particular e única, do qual é parte integrante. Qual é a narrativa possível?
A briga constante com a “imaterialidade” do sensível, da arte teatral, do caminho percorrido. Como organizar procedimentos de maneira a auxiliar sua visualização, análise e avaliação bem como suatransmissão, mantendo o princípio do frescor da experiência? Elaborar uma narrativa, também ela, capaz de provocar uma experiência em quem a recebe. Organizar uma experiência singular de maneira a ser plural. “As palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que pensamos, o que percebemos ou o que sentimos são mais do que simplesmente palavras” (LARROSA, 2001: 21).
O ator narraatravés das imagens que cria e corporifica, através da palavra, voz, pele, ossos, suor. Ambiciona transpor territórios, encantar, envolver, encantar-se, envolver-se, transportar-se.
O que é, para ele, experiência?
Principalmente quando o seu saber está impresso no corpo.



Experiência e percepção



Quando entramos numa sala de trabalho, no caso do ator, nunca sabemos o...
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