A escola e a leitura como prática social: um trabalho possível

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  • Publicado : 18 de abril de 2013
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A Escola e a Leitura como Prática Social: um trabalho possível


*Ana Maria Gama Florencio




RESUMO: O artigo se propõe refletir a respeito da leitura como produção e transformação de sentidos - visão discursiva -, em acordo com uma concepção de texto comounidade aberta a novas significações. Essa visão discursiva, ancorada em teorizações da Análise do Discurso de linha francesa, oferece uma abertura para ressignificações, associações, transformações, mediante uma visão histórica da língua e do sujeito.





Esse trabalho norteia-se pela noção de leitura como um processo de produção de sentidos em constante movimento, numa práticadiscursiva em situação concreta de interlocução, a partir de uma visão de linguagem como opaca, não transparente, preferindo pensar como o texto significa e não o que ele significa, concebendo-o, assim, em sua discursividade.


Assim, nessa prática de leitura, considera-se a relação entre o que é dito em diferentes discursos, bem como do que é dito de um modo e do que é dito de outro modo, nadireção do reconhecimento do não-dito no dito.


O trabalho com a leitura na escola vem sendo tema de muitas discussões e teorizações e, sabemos, a escola vem sendo criticada, interna e externamente, porque, na verdade, não tem conseguido formar alunos-leitores, apesar das diferentes metodologias a que vem recorrendo. Portanto, creio que uma questão que deve nortear nossa reflexão dizrespeito à imagem que a escola tem do sujeito-leitor que ela pretende assistir, diante do sujeito-aluno que ela recebe. Estamos pensando em assistir e não formar, como tratávamos anteriormente o trabalho de leitura na escola, porque, ao pensarmos a leitura, não podemos deixar passar a idéia de que existe um leitor formado, nem um texto de sentido único, fechado, mas sim leitores e textos que tambémfazem parte desse processo.


A escola - como uma instituição que tanto pode manter como transformar os sentidos ideologicamente constituídos numa sociedade de classes – tem o privilégio de constituir-se como um lugar institucional autorizado a ensinar a ler e a escrever. Desse modo, não pode continuar desconsiderando as condições de produção geradoras de uma posição discursiva em que oleitor/produtor de sentidos está inserto, pois o exercício da leitura mecânica, interpretada apenas pela via de uma visão imanente ao texto - por não trabalhar a relação língua/discurso - deixa o sujeito-leitor à margem da sociedade, em seus acontecimentos e posicionamentos políticos. Este sujeito-leitor estabelece uma relação com uma linguagem escolar higienizada - que ignora os conhecimentos doaluno, histórica e socialmente acumulados, como “leitor de mundo”(Paulo Freire) – e de outras formas de linguagem, às quais já teve e tem acesso fora da escola.


Quando nos referimos ao trabalho com a leitura como uma visão imanente ao texto estamos falando do texto lido em si mesmo, fechado num sentido único, sem a exploração de suas funções sociais como compreensão da realidade. Essaconcepção textualista tem origem na passagem dos estudos retóricos ao formalismo russo, no círculo lingüístico de Praga e no estruturalismo francês que, desde o início do século XX (décadas de 20/30), vem conduzindo o trabalho da escola com a língua materna. Essa perspectiva textualista[1] tem sua prática como uma leitura linear, fragmentada, seguida de exercícios de “compreensão” que se restringem aperguntas sobre o que está escrito no texto, como: quem são as personagens, quem diz frase tal, reescreva essa frase com suas palavras, etc, sem deixar que professores e alunos tenham a oportunidade de refletir, porque nenhuma discussão acontece, nada do que está implícito é levantado, nenhuma hipótese de associação da leitura a um meio sócio-cultural, nenhum movimento dialético que propicie a...
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