A crise da soberania

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  • Publicado : 9 de dezembro de 2012
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4. A CRISE DE SOBERANIA

O monarca na civilização micênica centralizava todo o poder, era senhor absoluto e tomava todas as decisões do reino, dominando-o em todos os âmbitos. Com a invasão dórica o anáx não tem mais poder de controle, de harmonizar a vida dos aqueus com o serviço dos escribas e demais funcionários da realeza. Agora, em tempos homéricos, há lado a lado duas forças opostas. Aprimeira é a aristocracia guerreira, cujas famílias mais ricas possuem terra e monopólios religiosos. A segunda é as comunidades rurais, formada por agricultores e pastores. O conflito violento entre essas duas forças possibilitará a alvorada de um momento de desorganização, de reflexão moral e de especulações políticas. Isso vai determinar um primeiro modo de “sabedoria” humana; bem longínquo,desde o princípio, da concepção aquéia do anáx absoluto.

Tais especulações políticas terão a condição de debate de oratória (agón), choque de argumentos em praça pública (ágora). Vai caracterizar a rivalidade relações de igualdade e ela não existirá se não for entre iguais. Coopera para uma noção diferente de poder essa nova maneira de pensar da aristocracia guerreira da Grécia. Pode-se falar de umespírito de igualdade, diferentemente do estado de submissão própria do sistema palaciano.

Não tem por objeto a phisis esse primeiro modo de “sabedoria” humana, o mundo dos homens, contudo. Interroga que forças o dividem contra si mesmo, Como harmonizá-las e unificá-las para que de seu conflito surja a ordem humana e da cidade, e que elementos o compõem.

Transformações sociais comomodificações na língua, no vocabulário são importantes para esse novo pensamento. O vocabulário dos postos, títulos, funções militares some quase por completo. A metalurgia do ferro sucede à do bronze, a decoração da cerâmica excluem os elementos da tradição mítica anterior. Do passado separado do presente, do mundo dos vivos separado do mundo dos mortos toma consciência o homem. O significado decomando (arché) se separa da função real (basiléia), definindo uma realidade política. O comando é todo ano modificado, a escolha perpassa pela confrontação e pela altercação. As próprias lendas de Atenas, único ponto da Grécia em que resquícios da época micênica perduraram, revelam uma arché em decadência, dividida, não pondo mais em destaque um personagem único que domina a vida social.

Tudo o quesugeria de centralização política e administrativa a técnica do carro apagou, porque a imagem do cavaleiro é, agora, associada ao valor do combate, o brilho do nascimento, a riqueza de bens de raiz e a participação de direito na vida pública. Passa a cidade definitivamente a ser polis quando o palácio deixa de ser o seu centro e a Ágora, espaço comum, onde são debatidos os interesses dapopulação, os interesses do público, torna-se o novo núcleo.

5. O UNIVERSO ESPIRITUAL DA POLIS

Não mais preservados como garantia de poder ou como particularidade da tradição familiar os assuntos da vida comum, os conhecimentos, os valores, as técnicas mentais são levadas ao novo centro da cidade: a Ágora, a praça pública. Tornam-se, no entanto, causa de análises, tomada de posição, debates einterpretações. Esse fenômeno instaura uma maneira diferenciada de relação entre os homens, o que é inédito e original, e garante à cidade a condição de polis na definição íntegra do termo.

Frente a essa realidade, em que a vida do grego é levada a público, tornar-se-á a palavra por excelência instrumento político. Da autoridade do Estado, do meio de comando e domínio será a arma principal. É apalavra o encontro das contradições, a argumentação, o debate. Exige a peithó, a persuasão, assim aquele que melhor persuadir, apresentando melhores argumentos vencerá. A arché, o comando, dependerá da palavra, da persuasão, do debate entre opostos. O logos assume uma função política, fazendo aparecer na linguagem, na oratória, elementos de demonstração, análise e argumentação.

A polis, de fato,...
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