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Corregedoria Geral da Justiça do
Estado do Rio de Janeiro
Poder Judiciário

PORTUGUÊS
A liberdade e o consumo
Cláudio de Moura Castro
Veja 1712, 8/8/01

Quantos morreram pela liberdade de sua pátria?
Quantos foram presos ou espancados pela liberdade de dizer o
que pensam? Quantos lutaram pela libertação dos escravos?
No plano intelectual, o tema da liberdade ocupa as
melhorescabeças, desde Platão e Sócrates, passando por Santo
Agostinho, Spinoza, Locke, Hobbes, Hegel, Kant, Stuart Mill,
Tolstoi e muitos outros. Como conciliar a liberdade com a
inevitável ação restritiva do Estado? Como as liberdades
essenciais se transformam em direitos do cidadão? Essas
questões puseram em choque os melhores neurônios da
filosofia, mas não foram as únicas a galvanizar controvérsias.Mas vivemos hoje em uma sociedade em que a maioria
já não sofre agressões a essas liberdades tão vitais, cuja
conquista ou reconquista desencadeou descomunais energias
físicas e intelectuais.
Nosso apetite pela liberdade se
aburguesou. Foi atraído (corrompido?) pelas tentações da
sociedade de consumo.
O que é percebido como liberdade para um pacato
cidadão contemporâneo que vota, fala o quequer, vive sob o
manto da lei (ainda que capenga) e tem direito de mover-se
livremente?
O primeiro templo da liberdade burguesa é o
supermercado. Em que pesem as angustiantes restrições do
contracheque, são as prateleiras abundantemente supridas que
satisfazem a liberdade do consumo (não faz muitas décadas,
nas prateleiras dos nossos armazéns ora faltava manteiga, ora
leite, ora feijão).Não houve ideal comunista que resistisse às
tentações do supermercado. Logo depois da queda do Muro
de Berlim, comer uma banana virou ícone da liberdade no
Leste Europeu.
A segunda liberdade moderna é o transporte próprio.
BMW ou bicicleta, o que conta é a sensação de poder sentar-se
ao veículo e resolver em que direção partir. Podemos até não
ir a lugar algum, mas é gostoso saber que há umveículo
parado à porta, concedendo permanentemente a liberdade de
ir, seja aonde for. Alguém já disse que a Vespa e a Lambretta
tiraram o fervor revolucionário que poderia ter levado a Itália
ao comunismo.
A terceira liberdade é a televisão. É a janela para o
mundo. É a liberdade de escolher os canais (restritos em
países totalitários), de ver um programa imbecil ou um jogo,
ou estar tãoperto das notícias quanto um presidente da
República - que nos momentos dramáticos pode assistir às
mesmas cenas pela CNN. É estar próximo de reis, heróis,
criminosos, superatletas ou cafajestes metamorfoseados em
apresentadores de TV.

OFICIAL DE JUSTIÇA AVALIADOR
CONHECIMENTOS TEÓRICOS
Uma “liberdade” recente é o telefone celular. É o
gostinho todo especial de ser capaz de falar comqualquer
pessoa, em qualquer momento, onde quer que se esteja.
Importante? Para algumas pessoas, é uma revolução no
cotidiano e na profissão. Para outras, é apenas o prazer de
saber que a distância não mais cerceia a comunicação, por
boba que seja.
Há ainda uma última liberdade, mais nova, ainda
elitizada: a internet e o correio eletrônico. É um correio sem
as peripécias e demoras docarteiro, instantâneo, sem remorsos
pelo tamanho da mensagem (que se dane o destinatário do
nosso attachment megabáitico) e que está a nosso dispor, onde
quer que estejamos. E acoplado a ele vem a web, com sua
cacofonia de informações, excessivas e desencontradas, onde
se compra e vende, consomem-se filosofia e pornografia, arte e
empulhação.
Causa certo desconforto intelectual ver substituídas porobjetos de consumo as discussões filosóficas sobre liberdade e
o heroísmo dos atos que levaram à sua preservação em
múltiplos domínios da existência humana. Mas assim é a
nossa natureza, só nos preocupamos com o que não temos ou
com o que está ameaçado. Se há um consolo nisso, ele está
no saber que a preeminência de nossas liberdades consumistas
marca a vitória de havermos conquistado...
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