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A LÓGICA PERVERSA DA ESTAGNAÇÃO:
DÍVIDA, DÉFICIT E INFLAÇÃO NO BRASIL
Luiz Carlos Bresser-Pereira
Revista Brasileira de Economia 45 (2), abril 1991:
187-211.

Abstract: The author attempts in this article to relate economic stagnation and the high
rates of inflation prevalent in Brazil to domestic and foreign debt, public deficit, and
negative public savings. The paper thus represents anattempt to analyze formally the
fiscal crisis that exists in Brazil, and which has led to loss of credit and to paralyzation of
the Brazilian government.

1. Introdução
A estagnação e as altas taxas de inflação são as principais características da economia
brasileira nos anos 80. Um país que nos últimos cem anos se desenvolveu a taxas muito
elevadas teve o seu caminho de crescimentosubitamente interrompido em 1981. Em 1988, a
renda per capita era inferior à de 1980. Num primeiro momento — entre 1981 e 1983 — a
diminuição no ritmo de crescimento foi corretamente atribuída ao esforço de ajustamento
imposto pela crise da dívida; numa segunda etapa — 1984 a 1986 — a crise parecia estar
superada e o processo de ajuste parecia haver logrado sucesso; desde 1987, porém, a crise estáde volta. Naquele ano, o PIB cresceu à mesma taxa do crescimento populacional; a taxa de
crescimento do PIB em 1988 foi negativa (0,3%), e a expectativa é de que a de 1989 sofra
uma redução de 1%. A renda per capita estará caindo em ambos os anos.
A crise pode ser explicada de várias maneiras, Está bem clara sua relação com a dívida
externa, A crise fiscal que se desenvolveu a partir da dívidaestá, obviamente, no centro da
estagnação econômica. A aceleração da inflação que se verificou durante os anos 80 pode ser
parcialmente explicada pela crise fiscal, mas já era certamente o conflito distributivo, que
caracteriza uma economia em que a renda é tão desigualmente distribuída como a brasileira, a

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Trabalho preparado para o simpósio The Present and the Future ofthe Pacific Basin Economy: a
Comparison of Asia and Latin America, patrocinado pelo Instituto of Developing Economies, Tóquio,
julho 1989. Traduzido por Ricardo Borges Costa.

causa fundamental da inflação e sua aceleração. A dívida externa, à medida que agiu
agravando direta ou indiretamente o conflito distributivo, desempenhou, obviamente, um
papel importante na aceleração da inflação.Esta, por sua vez, realimenta a crise no setor real
da economia, na medida em que agrava o déficit público, afasta os investimentos e diminui a
produtividade do capital. A inflação é tão danosa e perturba de tal forma a atividade
econômica que, entre 1984 e 1986, quando se alcançou o equilíbrio na conta corrente, tornouse popular no Brasil a crença de que a crise da dívida havia sido superada, deque o déficit
orçamentário estava sob controle e de que a única causa dos problemas do país era a inflação.
Todos esses fatores se inter-relacionam. Há um ditado que diz que nada é tão bemsucedido quanto o sucesso; o inverso é verdadeiro: o círculo vicioso da crise é ou parece ser
interminável. Há uma lógica perversa no processo de estagnação da economia brasileira.
Neste trabalho, tentareidescrever e formalizar essa lógica. Tentarei definir a macroeconomia
perversa da estagnação no Brasil. Na segunda parte, discuto a dívida externa, a qual está na
origem da atual crise — uma crise definida pela crise fiscal do Estado, pela redução da taxa
de investimentos e pela perda de eficiência do estoque de capital. Na terceira parte, defino
essa crise como uma crise de estoque, além de seruma crise de fluxo, e, na quarta, analisa-se
o caráter perverso do ajustamento sob tais circunstancias. Na quinta seção, discute-se a crise
fiscal em termos de déficit público e redução da poupança pública; é mostrada a relação entre
os dois fenômenos. Na sexta parte veremos como a crise da dívida torna-se uma crise fiscal. A
sétima seção consiste em uma análise das altas taxas de inflação...
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