Radis fome

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Nº 8 Š

Abril de 2003

Av. Brasil 4036/515, Manguinhos Rio de Janeiro, RJ Š 21040-361

Fotografia da fome
E MAIS:

TEMA ESPECIAL

Š Mudanças na Previdência Š A polêmica safra de soja transgênica Š Doença de Chagas

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de

RADIS 8 Š ABR/2003 [ 8 ]

tema especial

Caco Xavier

O

mundointeiro viu a foto do repórter fotográfico sul-africano Kevin Carter, clicada em 1993, no Sudão. A cena provoca náuseas: uma criança negra, esquelética, curvada sobre si mesma e totalmente apática pendura-se a um fio de vida no arcaico solo africano enquanto, a curta distância, um silencioso abutre aguarda pacientemente o momento de sua morte por inanição. A imagem provocou cho-

cantes reações emtodos que a viram, e foi uma das causas do suicídio do fotógrafo, apenas dois meses depois de ter conquistado, graças a ela, o cobiçado Prêmio Pullitzer de 94. Carter não suportou a responsabilidade de tê-la produzido e publicado. Qual é a causa do sofrimento diante dessa imagem? Primeiramente, o lugar do homem. Não é mais o homem que come, que domina, que festeja, e sim é a besta que devora ohomem. O homem torna-se alimento do animal. Mas o animal não é um leão, que investe e luta, e que dignifica a morte de um guerreiro masai;

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Nós olhamos a foto e a foto, tal como na expressão nietzscheana acerca do abismo, também olha dentro de nós. A UGUSTO DOS A NJOS (1884 — 1914) Ao encararmos a foto, nos A FOME E O AMOR (A UM MONSTRO ) sentimos responsáveis por vê-la.Podíamos preferir não tê-la não é uma víbora traiçoeira, que escondida inocula o secreto venevisto, como o fotógrafo preferia não tê-la feito (“Odeio aquela foto”, disno; não é uma bactéria ou um vírus, que, invisíveis, promovem a se, certa vez). Tarde demais: somos eternamente responsáveis pelo que corrupção de dentro pra fora. O animal é um abutre, covarde vemos e ouvimos, pelo que ‘cativamos’e aprisionamos em nós. Cada comedor de carniça, que ali se nutre da mais evidente decadência da um, é claro, lida à sua maneira com essa responsabilidade. Em terceiro experiência humana: a morte em decorrência da fome, no fértil planelugar, aparece uma forte reação de culpa. Culpa porque comemos, porta em que reinamos absolutos e dominamos com a razão, a arte e a que nossos filhos comem, porquepermitimos que outras pessoas sociência. Para os que adotam tal dicotomia, é a vitória da Natureza fram a fome num mundo (sabe-se disso) perfeitamente abastecido e sobre a Cultura, em virtude de um erro crasso dessa última. generoso. Culpa por culparmos o Estado e depois lavarmos as mãos. Culpa por elegermos governantes incapazes de co-padecerem, como nós e conosco. O fato é que a fome avilta olugar do homem neste planeta, que não precisa ser o píncaro de uma dominação egóica e exterminadora, mas pode bem (e deve!) ser uma verde planície de integração com todas as outras formas de vida, pelo reconhecimento que a vontade-de-viver as anima da mesma maneira que a nós. A fome de um indivíduo é o sofrimento indizível de toda Em segundo lugar, há compaixão. a espécie, e co-padecemos, e abreOsofrimento de uma criança, devido se em nós um vazio moral impossível a algum misterioso mecanismo interde ser preenchido, por mais dinheiro no nosso, faz disparar uma imediata que gastemos nos shopping-centers ou empatia, e tal sofrimento dói em nós, por mais títulos e realizações que acupor mais distante que esteja. ‘Sofremulemos. Por fim, a fome no planeta é mos-com’, co-padecemos, e isso acarumdedo acusador constantemente reta uma terrível responsabilidade. apontado para nosso rosto, a nos reCarter sentiu-se responsável não só cordar nossa monumental, ancestral, por ter clicado a foto, mas também fundamental, inacreditável falha. “A pela situação em que se encontrava fome existe desde sempre”, dizem alaquele pequeno ser humano sem guns. Isso só quer dizer que, desde nome. Ele viu a...
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