Quando o sociologo quer saber e ser educador

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Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor − entrevista com François Dubet IN: Revista Brasileira de Educação, n.5-6, 1997, pp.222-31.
Em entrevista concedida à Revista Brasileira de Educação em setembro de 1996, durante breve estada no Brasil, o sociólogo François Dubet reflete sobre sua experiência de um ano como professor de história e geografia em um colégio da periferia deBordeaux, França. Conhecido por suas pesquisas sobre a juventude marginalizada na França, François Dubet quis vivenciar, diretamente como professor, os dilemas da escola francesa contemporânea. François Dubet é pesquisador do Centre d’Analyse et d’Intervention Sociologiques (CNRS − École des Hautes Études en Sciences Sociales), professor titular e chefe do departamento de sociologia da Universidade deBordeaux II, e membro senior do Institute Universitaire de France. É autor de mais de uma dezena de livros, entre os quais, La galère: jeunes en survie. Paris: Fayard, 1987; Les lycéens. Paris: Seuil, 1991; Sociologie de l’experience. Paris: Seuil, 1994 (Edição portuguesa: Lisboa, Instituto Paiget, 1997); e A l’école (com Danilo Martucelli) Paris: Seuil, 1996.

− Por que, como pesquisador, vocêescolheu lecionar por um ano em um colégio? − Eu quis ensinar durante um ano por duas razões um pouco diferentes. A primeira é que nos meus encontros, coletivos ou individuais, com professores, eu tinha a impressão de que eles davam descrições exageradamente difíceis da relação pedagógica. Eles insistiam muito sobre as dificuldades da profissão, a impossibilidade de trabalhar, a queda de nível dosalunos etc. E eu me perguntava se não era um tipo de encenação um pouco dramática do seu trabalho. A segunda razão é que, durante uma intervenção sociológica com um grupo de professores, encontrei duas professoras com uma resistência muito grande ao tipo de análise que eu propunha. Elas deixaram o grupo. Uma delas escreveu uma carta em que me criticava particularmente por não ter lecionado, de serum “intelectual”, de ter uma imagem abstrata dos problemas. Foi um pouco por desafio que eu quis dar aulas para ver do que se tratava. Devo dizer que essa experiência não era nada central para mim, já que não era o coração do meu trabalho de pesquisa; nunca imaginei seriamente escrever um livro sobre a minha experiência de professor. Assumi uma classe de cinquième, 2º ginasial (que começa após oscinco anos de escola elementar), com crianças de 13/14 anos, em um colégio popular, bastante difícil, em que o nível dos alunos era baixo. Dei aulas durante um ano. Portanto, da volta às aulas em setembro até o mês de junho, quatro horas por semana, ao lado de minhas atividades de acadêmico, de chefe de departamento, me esforcei para ser um professor razoável. Ensinei história e geografia, já quesão disciplinas que me interessavam e que não requeriam uma formação específica como o inglês ou as matemáticas, pelo manos no nível escolar em que eu trabalhava. Podemos dizer muitas coisas sobre essa experiência. Logo dei-me conta de que a “observação participante” era um absurdo. Durante duas semanas, tentei ficar observando, isto é, ver a mim mesmo dando aula. Mas após duas semanas, estavacompletamente envolvido com o meu papel e eu não era de maneira alguma um sociólogo, embora tivesse me esforçado para manter um diário de umas cinqüenta páginas no qual redigi minhas impressões. Entretanto, não acredito que se possa fazer pesquisa se colocando no lugar dos atores; eu acho que é um sentimentalismo sociológico que não é sério ou que supõe muitas outras qualidades diferentes das minhas.Contudo, eu fiz esse trabalho em boas condições, pois fui muito bem acolhido pela grande maioria dos professores que ficaram bastante sensibilizados pelo fato de eu ir dar aulas, e

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tive realmente muito apoio, muita simpatia. Aliás, não é preciso esconder que o fato de ser um homem no meio de mulheres pode também ajudar. Era um clima bastante agradável. A minha primeira surpresa, e que...
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