Pedagogia do oprimido

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 28 (6826 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 2 de dezembro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
2. A concepção «bancária» da educação

como instrumento da opressão.

Seus pressupostos, sua crítica

Quanto mais analisamos as relações educador-educandos, na escola, em qualquer de seus níveis, (ou fora

dela), parece quemais nos podemos convencer de que estas relações apresentam um caráter especial e

marcante –o de serem relações fundamentalmente narradoras, dissertadoras.Narração de conteúdos que, por isto mesmo, tendem a petrificar- se ou a fazer -se algo quase morto,

sejam valores ou dimensões concretas da realidade. Narração ou dissertação que implica num sujeito –o

narrador –e em objetos pacientes, ouvintes –os educandos.

Há uma quase enfermidade da narração. A tônica da educação é preponderantemente esta – narr ar,

sempre narrar.

Falar da realidadecomo algo parado, estático, compartimentado e bem comportado, quando não falar ou

dissertar sobre algo completamente alheio à experiência existencial dos educandos vem sendo, realmente,

a suprema inquietação desta educação. A sua irrefreada ânsia. Nela, o educador aparece como seu

indiscutível agente, como o seu real sujeito, cuja tarefa indeclinável é "encher” os educandos dosconteúdos de sua narração. Conteúdos que são retalhos da realidade desconectados da totalidade em que

se engendram e em cuja visão ganhariam significação. A palavra, nestas dissertações, se esvazia da

dimensão concreta que devia ter ou se transforma em palavra oca, em verbosidade alienada e alienante.

Dai que seja mais som que significação e, assim, melhor seria não dizê- la.

Por isto mesmo éque uma das características desta educação dissertadora é a “sonoridade” da palavra e

não sua força transformadora. Quatro vezes quatro, dezesseis; Pará, capital Belém, que o educando fixa,

memoriza, repete, sem perceber o que realmente significa quatro vezes quatro. O que verdadeiramente

significa capital, na afirmação, Pará, capital Belém. Belém para o Pará e Pará para o Brasil

1.

A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização m ecânica do conteúdo

narrado. Mais ainda, a narração os transforma em “vasilhas”, em recipientes a serem “enchidos” pelo

educador. Quanto mais vá “enchendo” os recipientes com seus “depósitos”, tanto melhor educador será.

Quanto mais se deixem docilmente “encher”, tanto melhores educandos serão.

Destamaneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o

educador o depositante.

Em lugar de comunicar - se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, meras

incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção “bancária” da educação,

em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem osdepósitos, guardá-los

e arquivá- los. Margem para serem colecionadores ou fic hadores das coisas que arquivam. No fundo,

porém, os grandes arquivados são os homens, nesta (na melhor das hipóteses) equivocada concepção

“bancária” da educação. Arquivados, porque, fora da busca, fora da práxis, os homens não podem ser.

Educador e educa ndos se arquivam na medida em que, nesta destorcidavisão da educação, não há

criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca

inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundoe com os outros. Busca

esperançosa também.

Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada

saber. Doação que se funda numa dasmanifestações instrumentais da ideologia da opressão – a

absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual

esta se encontra sempre no outro.

1

Poderá dizer - se que casos como estes já não sucedem nas escolas brasileiras. Se realmente estes não

oc orrem, continua, contudo, preponderantemente, o caráter narrador que estamos...
tracking img