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MANA 4(1):47-77, 1998

UMA ETNOLOGIA DOS “ÍNDIOS
MISTURADOS”? SITUAÇÃO COLONIAL,
TERRITORIALIZAÇÃO E FLUXOS
CULTURAIS*
João Pacheco de Oliveira

Os povos indígenas do Nordeste não foram objeto de especial interesse
para os etnólogos brasileiros. Nas bibliotecas e no mercado editorial são
muito raros os trabalhos especializados disponíveis1. Apesar da grande
expansão do sistema depós-graduação nos últimos anos no Brasil, ainda
no início desta década contava-se com poucas teses monográficas 2 e
nenhuma interpretação mais abrangente formulada sobre o assunto. Tudo
levava a crer tratar-se, em definitivo, de um objeto de interesse residual,
estiolado na contracorrente das problemáticas destacadas pelos americanistas europeus, e inteiramente deslocado dos grandes debates atuaisda
antropologia. Uma etnologia menor.
Na década de 50, a relação de povos indígenas do Nordeste incluía
dez etnias; quarenta anos depois, em 1994, essa lista montava a 23. Se
lembrarmos da conceituação dos povos indígenas nas Américas como
“pueblos únicos” (Bonfil 1995:10), ou da descrição dos direitos indígenas como “originários” (Carneiro da Cunha 1987), estaremos diante de
uma contradiçãoem termos absolutos: o surgimento recente (duas décadas!) de povos que são pensados, e se pensam, como originários. Existem
muitas outras conceituações similares espalhadas pelo mundo (como a
de populações aborígines, encontrada na legislação na Austrália e Oceania, no Canadá, na Argentina e em outros países da América Latina;
“populations autochtones”, referência comum utilizada na etnologiafrancesa, e pelos africanistas em especial; “ first nations ”, empregada por
organizações indígenas nos Estados Unidos), o que torna ainda mais
ampla a questão. Como podemos explicar esse paradoxo? Sem dúvida as
lacunas etnográficas e os silêncios da historiografia — enquanto compo-

* Conferência realizada no concurso para professor-titular da disciplina Etnologia, Museu Nacional/UFRJ, Rio deJaneiro, 11 de novembro de 1997.

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UMA ETNOLOGIA DOS “ÍNDIOS MISTURADOS”

nentes de um discurso do poder (vide Trouillot 1995) — constituem fontes geradoras desse enigma, mas não resolvem o problema, tornando-se
necessário discutir também as teorias sobre etnicidade e os modelos analíticos utilizados.
Minha intenção aqui é fornecer subsídios para se refletir sobre esse
paradoxo. Paratanto a minha exposição segue três movimentos. No primeiro procuro mostrar como ocorreu a formação do objeto de investigação e reflexão intitulado “índios do Nordeste”, partindo dos cânones científicos nacionais e internacionais até as instituições locais, mostrando
como concretamente se inter-relacionaram modelos cognitivos e demandas políticas. Em um segundo movimento discuto conceitos para aanálise da etnicidade e, baseando-me em algumas etnografias, procuro fornecer uma chave interpretativa para os fatos da chamada “emergência” de
novas identidades. Finalmente debato com o americanismo e reflito sobre
as perspectivas para o estudo de populações tidas como de pouca distintividade cultural (ou seja, culturalmente “misturadas”).

Uma etnologia das perdas e das ausências culturaisEm seu trabalho de classificação das áreas culturais indígenas existentes
no país, Eduardo Galvão (1979 [1957]:225-226) manifesta dúvidas quanto
à última delas — a XI, intitulada “nordeste”3 — possuir, efetivamente, uma
unidade e consistência igual às demais. O autor destaca desde logo os efeitos da aculturação e o seu diagnóstico sobre as dez etnias dessa área cultural é o seguinte: “A maiorparte vive integrada no meio regional, registrando-se considerável mesclagem e perda dos elementos tradicionais,
inclusive a língua”4. Ao mencionar os Pataxó, o autor agrega (sem aspas)
o adjetivo “mestiçados”. É importante lembrar que o artigo de Galvão —
por seu caráter introdutório e classificatório — constitui um dos textos
mais consultados não só por estudantes de antropologia, mas...
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