Instrumentais sob a otica marxiana

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  • Publicado : 18 de setembro de 2011
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A questão dos instrumentais técnico-operativos numa perspectiva dialético crítica de inspiração marxiana*
Jane Cruz Prates** Suponhamos que o homem é homem e que é humana a sua relação com o mundo. Então o amor só com amor se poderá permutar, a confiança com a confiança, etc. Se queremos apreciar a arte temos de ser pessoas artisticamente cultivadas; se queremos influenciar outras pessoasimporta que sejamos pessoas com efeito verdadeiramente estimulante e encorajador sobre os outros. Cada uma das nossas relações ao homem e à natureza deverá ser uma expressão específica, que corresponda ao objetivo de nossa vontade, da nossa vida real individual... (Karl Marx – Manuscritos de Paris – III Manuscrito). Muito tem-se questionado no âmbito do Serviço Social acerca da necessidade de darmosmaior visibilidade ao conjunto de estratégias utilizadas para operacionalizar a sua intervenção na realidade social, pelos profissionais que a orientam por uma concepção dialético crítica. É necessário reconhecer que, apesar do volume significativo e qualitativo de produções contemporâneas na área do Serviço Social, produzidas a partir desta perspectiva nos últimos anos, poucas têm tido aspreocupações em tratar mais especificamente sobre este eixo da práxis profissional, talvez até mesmo por interpretar o conjunto de instrumentos e técnicas como elementos que compõem o método enquanto unidade dialética, como estratégias de mediação.1 Primeiramente é importante localizar o Serviço Social como uma disciplina inserida na divisão sociotécnica do trabalho, que se caracteriza por não intervir ouproduzir conhecimentos sobre um território específico, como no caso do Direito, da Psicologia ou da Sociologia, mas que se propõe a interpretar e agir nas tramas das relações sociais, o que envolve e articula múltiplos territórios e conhecimentos, complexificando-o por um lado, tornando talvez mais difícil dar visibilidade ao seu processo de produção específica, mas, ao mesmo tempo, aproximando-o darealidade concreta que não fragmenta unidades como sujeitos ou grupos. Partir de uma concepção que vê a realidade e os sujeitos sociais que a constituem e por ela são constituídos como unidades dialéticas, pressupõe uma nova forma de olhar, tratar e utilizar os instrumentais.
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O presente texto foi apresentado, originalmente, de forma integral, porém com algumas complementações, naTese de Doutorado da autora que consta nas Referências. Jane Prates é Assistente Social, Mestre e Doutora em Serviço Social pela PUCRS, Professora da FSS/PUCRS, pesquisadora do Laboratório Internacional de Estudos Sociais – Labinter e Coordenadora de Projetos da Secretaria Municipal de Captação de Recursos e Cooperação Internacional – SECAR/ PMPA. Sobre este tema são importantes as contribuiçõesde Pontes (Mediação e Serviço Social. Cortez, 1995) e Martinelli (Um novo olhar sobre os instrumentais em Serviço Social. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo: Cortez, n. 45, 1994; e Notas sobre mediações. Mimeo, 1993; este último utilizado como base norteadora para a elaboração do presente texto).

Apesar de reconhecermos o Serviço Social como uma disciplina interventiva e,conseqüentemente, ser impossível negar a importância de um conjunto de estratégias que dêem conta deste processo de intervenção, é preciso demarcar que na perspectiva dialético-crítica a centralidade é atribuída à finalidade e não ao instrumental em si. Ora, Marx já criticava, nas Teses sobre Feuerbach,2 os filósofos de sua época, dizendo que não bastava interpretar o mundo de diferentes maneiras, mas simtransformá-lo e, ainda, que “é na práxis que o homem deve demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno de seu pensamento”. Logo, parece irônico reduzir uma metodologia fundamentada na obra marxiana a simples, ou mesmo complexa análise da realidade, sem considerar o aspecto interventivo, movimento necessário para sua transformação, conforme apontava o próprio Marx. No...
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