Gataca

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ISSN 1517-6916
CAOS
Revista Eletrônica de Ciências Sociais
Número 8 – Março de 2005
Págs. 7 - 16
Corpo, tecnologia e controle: Gattaca e o homemmáquina
*
Bia Cagliani
**
Resumo: A partir do século XIX o corpo passou a ser considerado
uma construção social e não mais um conjunto de células e órgãos que
eram responsáveis por todas as características humanas, desde a cor da
pele atéo grau de civilização. O social, então, passa a comandar o
biológico. O corpo se torna sujeito de modelos e leis definidas de acordo
com requisitos locais e temporais. Presenciamos o culto ao corpo em
detrimento do culto à alma. E, de maneira cíclica, observamos, através
do filme Gattaca, que o corpo humano retorna à sua condição de
máquina, posto que se torna novamente escravo das suasvontades e
volta a agir de acordo com o seu destino pré-moldado biologicamente.
Através dessas duas vertentes, discutiremos neste artigo dois tipos de
controle exercidos sobre o corpo: 1) o controle externo, por meio de
regras sociais e das novas tecnologias que visam à manutenção da
ordem; e 2) o controle interno, por meio da manipulação genética, cuja
função seria a de aperfeiçoar ohomem.
Palavras-chave: homem-máquina; controle tecnológico; corpo

* Este artigo é uma versão ligeiramente modificada do trabalho de conclusão da
disciplina Tópicos Especiais em Antropologia III – Antropologia do Corpo, ministrada
pelo professor Giovanni Boaes Gonçalves no curso de Ciências Sociais da UFPB, no
segundo semestre letivo de2004. A atual versão foi apresentada como
comunicação no Seminário Tecnologia, Sociabilidade e Cultura, promovido pelo
GETS – Grupo de Estudos em Tecnologia e Sociedade, que ocorreu em maio de
2005 no Centro de Ciências de Humanas Letras e Artes da UFPB.
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Concluinte do curso de Ciências Sociais da UFPB e membro do GETS – Grupo de
Estudos em Tecnologia e Sociedade (DCS/UFPB).(biacagliani@yahoo.com.br)www.cchla.ufpb.br/caos - Revista Eletrônica de Ciência Sociais – Número 8 – março de 2005
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A partir do século XIX observamos que o corpo passou a ser
considerado uma construção social e não mais um aglomerado de
células e órgãos cujas funções eram ditadas por uma série de funções
vitais, isto é, pela biologia humana. Daquela maneira, os homens
seriam semelhantes aosanimais que possuem uma natureza própria
imutável, posto que na modernidade passou-se a compreender o
corpo como um espaço social, o qual está sujeito a divergências de
cultura para cultura. O social passa a influenciar o biológico. Os
odores, os sons e toda uma estética da normalidade variam em cada
sociedade. Segundo Gonçalves,
... as manifestações do corpo que envergonham os modos,primeiramente da
corte e depois da burguesia herdeira dos costumes da corte, são explícitas no
corpo grotesco. O corpo moderno, herdeiro da civilização, é um corpo liso,
moral, sem aspereza, reticente a toda transformação eventual (1998: 35).
Desta forma, aquele corpo “natural”, instrumentalizado pela
alma e escravo das vontades de Deus, se transforma num corpo
social, construído deacordo com os requisitos locais e atuais. Cada
cultura busca uma padronização própria dos corpos e
comportamentos a fim de criar parâmetros identitários; já na
modernidade, a homogeneização está vinculada à lógica de mercado,
onde existe uma busca incessante pela lucratividade. Com corpos de
mesma potência física – a mais alta possível, é claro! – há de se
produzir mais, num período menorde tempo e de forma menos
desgastante. O corpo humano, desta maneira, vira mercadoria,
sujeitando-se a modelos e leis. Por exemplo, o discurso que ouvimos
hoje em dia sobre a saúde nada mais é que uma dessas normas
impostas de modo a potencializar as capacidades humanas. Um corpo
sadio, livre de vícios e doenças, é um corpo eficaz. Como vemos em
Santos,
... o corpo passa a ser...
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