Fearn

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  • Publicado : 18 de outubro de 2012
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Fearn - Corpos e Almas

Imaginem que os alunos da Universidade canadense de Victoria conseguissem fazer com que o Cyber link funcionasse perfeitamente, e que os nossos pensamentos pudessem ser transmitidos por eletrodos diretamente à web. Isso permitiria, por exemplo, que pessoas incapazes de vocalizar tivessem um  meio de comunicação direto. Seria como a confirmação empírica de haver umuniverso interno e outro externo. Há uma crença tácita num universo íntimo, privado, inacessível aos demais. No entanto, se uma vez o Cyber link viesse a funcionar e fosse socializado (posto a venda), ficaria provada a inexistência desse universo privado. Ficaria provado que o pensamento é algo tão publicitável quanto à voz, seria apenas uma questão de veículo (médium). Se o relato de usuários do Cyberlink fosse corroborado por nossa experiência, haveria fortes razões para ficarmos convencidos os sinais cerebrais podem ser traduzidos por meio de impulsos elétricos e eletrônicos. Porém, se o pensamento fosse independente do cérebro? O Cyber link seria impossível. Poderíamos até afirmar que o Cyber link seria o primeiro aparelho detector da consciência. Há eventos imperceptíveis na segundapessoa, ou a um observador (terceira pessoa), como uma migalha de pão com a qual se engasga, ou a mosca volante no globo ocular, e no entanto não argumentamos que são eventos apenas perceptíveis na primeira pessoa. Porque insistir que a consciência é um evento que se nota apenas em primeira pessoa?

Para alguns filósofos, dor e pensamentos não são apenas processos cerebrais.  David Chalmers argumentaque a descoberta dos canais elétricos e eletrônicos dos processos cerebrais não teria respondido ao problema difícil: como o cérebro produz consciência?

No século XVII, Descarte afirmou que poderia imaginar-se existir sem um corpo. Seria uma mente desencarnada. Por quê? Por que mente e corpo seriam duas substâncias distintas, uma coisa corpórea (substância extensa) e outra anímica (substânciapensante). Poderiam estar separadas, se Deus assim o quisesse, essas duas substâncias. Esse é o argumento conhecido como dualista. E a conseqüência era que Descartes avaliava a substância pensante como aquela mais própria de nossa identidade pessoal. Porque? Porque, muito embora nosso corpo seja reconhecido como parte de nós, o auto-reconhecimento é uma matéria de pensamento. E como a Lei deLeibniz afirma que duas substâncias aparentemente idênticas, se são distinguíveis em algum ponto, não é a mesma substância, segue que a alma (mente) seria a sede de nossa personalidade, uma vez que o corpo não é necessário à constatação de nós mesmos, segundo Descartes. No entanto, aqui parece haver um problema lógico: o fato de pensarmos num objeto de determinado modo, não significa que assim seja eleconstituído. Posso estar numa festa de mascarados e haver um mascarado usando a mascar que meu pai dissera que usaria, no entanto ele pode não ser o meu pai, apesar de toda semelhança...

Atualmente, os filósofos da mente iniciam, em geral, negando Descartes. Chalmers acredita que há certa razão em Descartes, porém a direção é errada.  Não se trata da mente ser concebida sem corpo, mas o corpopoder ser pensado independer da mente. Chalmers desloca o problema, de fantasmas (Descartes) para zumbis (corpos sem mente). O zumbi é aquele tipo que trabalha, conduz uma conversa normal, constitui família, eles parecem gente saudável e normal, mas, na verdade, são autômatos: eles não têm vida interior.  Se eles usassem o Cyber link o dispositivo produziria fala. Eles têm todos os atributosfísicos, sem componentes mentais.

Pesquisas de neurocientistas, como Christo Koch e Francis Crick indicam que grande parte das ações humanas se dá de forma inconsciente, automática. Imagine o ato de dirigir um veículo, ou a execução de uma peça musical por um virtuose, isso se dá inconscientemente. [A experiência de Benjamin Libett sobre a deliberação, que indica que nosso cérebro recebe impulsos...
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