Economia

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  • Publicado : 18 de abril de 2012
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A modernidade segundo as teorias sociais clássicas (Paulo Ghiraldelli Jr)

O que é a modernidade? Se agora, no final do século, discutimos se vivemos o fim da modernidade e se estamos ou não em uma situação pós-moderna, entre o século XIX e as primeiras décadas deste século, a questão era outra: queria-se caracterizar socialmente os chamados “tempos modernos”. Esse esforço, aliás, pode mesmojá ser tomado como uma das características da modernidade. Um dos seus frutos é o advento e consolidação da sociologia, que muitas vezes é mesmo uma crônica da modernidade. E é a sociologia, justamente em seu momento de consolidação como disciplina universitária na França, com Durkheim, que repõe no centro da discussão sobre a modernidade a preocupação com a ética e com a moral.

Querendo retirara discussão sobre ética e moral do campo filosófico, de modo a compreender os fenômenos morais, do ponto de vista social, desvinculando os resultados advindos dessa compreensão de qualquer formulação de descrições de caráter normativo, Durkheim, já pode, por isso, ser tomado como um sintoma da modernidade, ao mesmo tempo que constrói uma teoria sobre ela.

Contrapondo-se às visões que entendiama modernidade como uma época de completa incerteza quanto às possibilidades de vigência da solidariedade entre os homens, Durkheim estuda esse fenômeno moral em sua tese de doutoramento, A divisão do trabalho social. Nela, ele contrapõe à sociedade tradicional o que entende ser a sociedade moderna. Na primeira, a “consciência coletiva” – as crenças, sentimentos etc., partilhados por todos osmembros da coletividade – é forte, unitária e homogeneizadora. Consequentemente, nesse tipo de sociedade os homens pouco se diferenciam entre si, e a coesão social é fundada no que ele denomina de “solidariedade mecânica”. Nesse caso a divisão do trabalho tem uma forma rudimentar, geralmente não passando de divisão sexual. Na sociedade moderna, ao contrário, uma força determinada de produção estende eaprofunda a divisão do trabalho: a diversificação, as especializações e, consequentemente, a diferenciação entre as pessoas são intensas. A “consciência coletiva” se enfraquece, abrindo espaço para a “consciência individual”; a própria “consciência coletiva” muda de caráter, passando mesmo a sustentar o “culto do indivíduo”. Durkheim conclui, então, que a crescente divisão do trabalho e asespecializações geram uma crescente interdependência entre os membros da sociedade: desenvolve-se uma coesão social baseada não mais na igualdade das pessoas e no total envolvimento da “consciência social” na “consciência coletiva”, mas, sim, baseada na diferenciação e complementaridade entre os membros da sociedade. Tem-se, então, uma situação social na qual vigora a “solidariedade orgânica” edetrimento relativo da solidariedade mecânica. Entendendo que a base moral de cada homem não é feita de generalidades, e que o homem está destinado a preencher uma posição especial no “organismo” social, Durkheim acredita que ele deve, antecipadamente, aprender o seu papel de homem. Com isto não está Durkheim advogando uma especialização precoce da criança, mas, segundo o que ele próprio alerta, apenaslembrando que a educação na sociedade moderna desenvolve um trabalho de orientação vocacional e que este trabalho está inevitavelmente direcionado no sentido de potencializar a “solidariedade orgânica”. A educação participa, então, digamos assim, naturalmente, do desenvolvimento de formas de coesão social que seriam superiores, se integrando em um projeto de conservação da sociedade.
Não queDurkheim secundarize o caráter inerentemente conflituoso da sociedade moderna, pelo contrário, sua compreensão da modernidade é a resposta, talvez não sem uma dose de angústia, diante dos conflitos dos chamados novos tempos, uma resposta que acredita encontrar uma senda na qual ainda poderíamos ver caminhar o fluxo de um progresso otimista. Mas a compreensão durkheimiana da modernidade é tensionada...
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