Antropologia e moralidade

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ANTROPOLOGIA E MORALIDADE  (*)
 

Roberto Cardoso de Oliveira

 
As idéias que pretendo desenvolver aqui versarão sobre a moralidade, considerando-a como uma instância suscetível de investigação antropológica. Para viabilizar esse objetivo, penso poder trilhar dois caminhos sucessivamente: um, procurando elucidar o próprio conceito de moralidade em termos que sejam consistentes com aspossibilidades de tratamento interdisciplinar; outro, mostrando o quanto o conceito pode ser fecundo para a antropologia em sua aplicação na pesquisa empírica. Ambos os caminhos, entretanto, devem conduzir-nos a um único ponto de chegada: colocar em debate a possibilidade de uma ética válida em escala planetária. E embora procure desenvolver esse tema em torno da questão da etnicidade – tomadacomo instância empírica privilegiada para a observação dos fatos morais e éticos –, penso que isso não comprometerá o alcance das considerações que pretendo fazer, uma vez que espero que elas sejam de interesse não apenas do etnólogo ou do indigenista, mas que mereçam a atenção também do cientista social lato sensu. Mesmo porque o revigoramento das etnias em todo o planeta, ocorrido nesta segundametade do século, propõe novas questões à reflexão. Freqüentemente essas questões têm sido formuladas em termos políticos ou econômicos, instâncias indiscutivelmente possuidoras de maior visibilidade. Procurarei trazer essas questões para a instância da ética, procurando relacionar a etnicidade com a moralidade de ações promovidas por Estados nacionais ou à sua sombra, de modo a permitir interpretaressas ações à luz de uma ética com pretensões planetárias, o que equivale dizer, através de uma perspectiva pouco comum à antropologia.
A moralidade como problema antropológico
O tema moralidade é freqüentemente tratado no âmbito da filosofia; só muito raramente ele tem sido abordado pelos antropólogos. Estes parecem haver delegado o problema moral àqueles (talvez os filósofos) quese sintam mais à vontade para enfrentá-lo, sobretudo quando o desenvolvimento do tema pode conduzir o antropólogo para caminhos imprevistos e de difícil saída no âmbito de nossa disciplina. Refiro-me especificamente à questão do valor e, conseqüentemente, do juízo de valor – desde que a moral sempre o pressupõe –, tão ameaçador para quem (certamente, e acima de tudo, o antropólogo) foi treinadopara exorcizar o fantasma do preconceito em qualquer de suas manifestações. Porém se a luta contra o etnocentrismo, além de generosa, é cientificamente correta, tal não significa que ela nos impeça de assumir o desafio de enfrentar o exame do fato moral com as armas de nossa disciplina, sem reduzi-lo a uma questão apenas relevante quando dela nos descartamos... Afinal, como julgar o ato de umapessoa, membro de uma outra sociedade, e que tenha sido guiada em sua ação por valores próprios a sua cultura? Claro que não cabe ao antropólogo julgar – isso é função de juízes e moralistas, mas também do homem comum, que, imerso em seu cotidiano, é sempre impelido a julgar todo e qualquer ato (seu ou de terceiros) como condição de orientar seu próprio comportamento. Mas o antropólogo enquanto tal,i.e., no exercício de seu métier, sempre terá por alvo procurar o sentido do fato moral, compreendê-lo, portanto, de maneira a esclarecê-lo minimamente, seja para si próprio, seja para seus leitores, seja para seus estudantes. Considero, assim, importante retomar a questão da moralidade, presente desde os albores de nossa disciplina, como suscetível de investigação antropológica. Mas desde jágostaria de advertir que não tratarei aqui da ética do antropólogo, quer como cientista, quer como cidadão, um tema, aliás, freqüentemente abordado em nossa comunidade profissional. Essa seria uma outra questão, aliás corriqueira nos dias de hoje, mas que não cabe aqui abordar. Pretendo examinar o fato moral como um alvo de pesquisa e reflexão através da categoria da moralidade, portanto como um...
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