Anne rice

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Sou o Vampiro Lestat. Lembram-se de mim? O vampiro que se tornou um

superastro do rock, aquele que escreveu a auto-biografia? Aquele de cabelos louros e

olhos cinzentos, e o desejo insaciável de notoriedade e fama? Vocês se lembram. Eu

queria ser um símbolo do mal num século brilhante que não tinha espaço para o mal

literal que eu sou. Achei até que faria algum bem dessamaneira — bancando o demônio no palco pintado.

E estava começando muito bem, quando nos falamos pela ultima vez. Eu acabava

de fazer minha estréia em São Francisco — primeiro “show ao vivo” meu e da minha

banda mortal. Nosso disco foi um sucesso tremendo. Minha auto-biografia estava indo

muito bem, tanto com os mortos quanta com os não-mortos. Então aconteceu uma coisa

inteiramenteimprevista. Bom, pelo menos eu não previ. E quando deixei vocês eu estava,

pode-se dizer, a beira do abismo. Bom, agora está tudo acabado — tudo o que aconteceu

depois. Sobrevivi, obviamente. Senão não estaria falando com vocês. E a poeira cósmica

finalmente assentou; e o pequeno rasgão no tecido das crenças racionais foi consertado, ou pelo menos fechado.

Estou um pouco mais triste porcausa disso tudo, um pouco mais perverso, e

também um pouco mais cuidadoso. Estou também infinitamente mais poderoso, embora

a minha parte humana esteja mais perto da superfície do que nunca — um ser angustiado

e faminto que ao mesmo tempo ama e odeia essa invencível casca imortal que me

aprisiona. A sede de sangue? Insaciável, embora fisicamente eu precise menos que nunca

— acho queagora poderia viver inteiramente sem sangue. Mas o desejo que sinto por

tudo que anda me diz que nunca farei essa experiência.

Sabem, de qualquer maneira nunca se tratou simplesmente de uma necessidade

ANNE RICE A RAINHA DOS CONDENADOS

de sangue, embora o sangue seja o mais sensual que uma criatura possa desejar; e a

intimidade do momento — matar, beber — a grande dança dos corposcolados que se

desenrola à medida que a vítima enfraquece e eu me sinto expandir, engolindo a morte,

que por uma fração de segundo resplandece enorme como a vida. Mas isto é falso.

Nenhuma morte pode ser enorme como a vida. E é por isso que estou sempre

tirando a vida, não e? E agora mais que nunca estou longe da salvação. Ter consciência

3 disso só piora as coisas. Claro que aindaposso passar por humano; de um jeito ou de outro, todos nós podemos, não importa a nossa idade. Colarinho levantado, chapéu puxado para baixo, óculos escuros, mãos nos bolsos — isso geralmente funciona. Gosto de me disfarçar com jaquetas de couro apertadas e calças jeans bem justas, e um par de botas de couro boas para qualquer terreno. Porem, de vez em quando, uso as sedas que as pessoas gostamneste clima sulino onde agora resido. Se alguém olhar bem de perto, então há uma rápida sugestão telepática: o que você está vendo é inteiramente normal. Uma amostra do velho sorriso, os caninos bem escondidos, e o mortal se tranqüiliza. Ocasionalmente dispenso todos os disfarces e saio do jeito que sou: cabelos compridos, um paletó de veludo que me faz lembrar os velhos tempos e um ou dois anéisde esmeralda na mão direita. Caminho apressado por entre as multidões no centro dessa linda e corrupta cidade sulina; ou passeio devagar ao longo das praias, respirando a cálida brisa sulina, nas areias brancas como a lua. Ninguém me olha por mais de um segundo. Há muitas outras coisas inexplicáveis a nossa volta — horrores, ameaças, mistérios que atraem as pessoas e depois as desencantaminevitavelmente. Então elas voltam ao velho ramerrão. O príncipe jamais virá, todos sabem disso; e talvez a Bela Adormecida esteja morta. Acontece o mesmo com os que sobreviveram comigo e que comigo compartilham desse cantinho quente e verdejante do universo — o extremo sudeste do continente norte-americano, a cintilante metrópole de Miami, um belo campo de caça para os imortais sedentos, se um tal...
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