Raizes do Brasil - O homem cordial

Páginas: 17 (4207 palavras) Publicado: 1 de dezembro de 2014


O HOMEM CORDIAL

• Antigona e Creonte
• Pedagogia moderna e as virtudes
antifamiliares
• Patrimonialismo
• O “homem cordial”
• Aversão aos ritualismos: como se
manifesta ela na vida social, na
linguagem, nos negócios
• A religião e a exaltação dos valores
cordiais

O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda me- N
nos, uma integração de certos agrupamentos, decertas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre
o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma des- (
continuidade e até uma oposição. A indistinção fundamental entre j
as duas formas é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais
entusiastas durante o século xix. De acordo com esses doutrinadores, o Estado e as suas instituiçõesdescenderiam em linha reta, e por
simples evolução, da família. A verdade, bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência. Só pela transgressão da ordem
doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo
se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre
o particular, do intelectualsobre o material, do abstrato sobre o corpóreo e não uma depuração sucessiva, uma espiritualização de formas mais naturais e rudimentares, uma procissão das hipóstases, para
falar como na filosofia alexandrina. A ordem familiar, em sua forma pura, é abolida por uma transcendência.
Ninguém exprimiu com mais intensidade a oposição e mesmo
a incompatibilidade fundamental entre os dois princípios doque Sófocles. Creonte encarna a noção abstrata, impessoal da Cidade em
luta contra essa realidade concreta e tangível que é a família. Antígona, sepultando Polinice contra as ordenações do Estado, atrai sobre si a cólera do irmão, que não age em nome de sua vontade pessoal, mas da suposta vontade geral dos cidadãos, da pátria:
E todo aquele que acima da Pátria
Coloca seu amigo, eu o terei pornulo.
O
conflito entre Antígona e Creonte é de todas as épocas e preserva-se sua veemência ainda em nossos dias. Em todas as culturas,
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o processo pelo qual a lei geral suplanta a lei particular faz-se acompanhar de crises mais ou menos graves e prolongadas, que podem afetar profundamente a estrutura da sociedade. O estudo dessas crises
constitui um dos temas fundamentais da históriasocial. Quem compare, por exemplo, o regime do trabalho das velhas corporações e grêmios de artesãos com a “ escravidão dos salários” nas usinas modernas tem um elemento precioso para o julgamento da inquietação social
de nossos dias. Nas velhas corporações o mestre e seus aprendizes e
jornaleiros formavam como uma só família, cujos membros se sujeitam a uma hierarquia natural, mas que partilham dasmesmas privações e confortos. Foi o moderno sistema industrial que, separando os
empregadores e empregados nos processos de m anufatura e diferenciando cada vez mais suas funções, suprimiu a atmosfera de intimidade
que reinava entre uns e outros e estimulou os antagonismos de classe.
O novo regime tom ava mais fácil, além disso, ao capitalista, explorar
o trabalho de seus empregados, a trocode salários ínfimos.
)
Para o empregador moderno — assinala um sociólogo norteamericano — o empregado transforma-se em um simples número:
a relação humana desapareceu. A produção em larga escala, a organização de grandes massas de trabalho e complicados mecanismos
para colossais rendimentos, acentuou, aparentemente, e exacerbou
a separação das classes produtoras, tornando inevitável umsentimento de irresponsabilidade, da parte dos que dirigem, pelas vidas dos
trabalhadores manuais. Compare-se o sistema de produção, tal como existia quando o mestre e seu aprendiz ou empregado trabalhavam na mesma sala e utilizavam os mesmos instrumentos, com o que
ocorre na organização habitual da corporação moderna. No primeiro, as relações de empregador e empregado eram pessoais e diretas,
não...
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