O ano da morte de ricardo reis

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Revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas

Dossiê: Saramago
PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol. 02 N. 02 – jul/dez 2006

Ricardo Reis: entre a heteronímia e a personagem ficcional
Priscilla de Oliveira Ferreira*
Resumo: Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago se apropria do mais clássico dos heterônimos de Fernando Pessoa e insere essa personagem em uma narrativa.Ficção da ficção, enquanto o poeta envia Ricardo Reis para o Brasil, o romancista leva-o de volta a Portugal. O objetivo deste trabalho é analisar a relação entre os dois Ricardos, ver o que os aproxima e o que os distancia, abordando a questão do processo heteronímico sob o ponto de vista do “drama em gente”. Abstract: In The Year of the Death of Ricardo Reis, José Saramago appropriates the mostclassic heteronyms of Fernando Pessoa and introduces this character into a narrative. Fiction of another fiction, while the poet sends Ricardo Reis to Brazil, the novel writer takes him back to Portugal. This paper aims to analyse the relationship between the two Ricardos, as well as to observe what brings them closer and what sets them apart, approaching the heteronymic process matter under the “dramain people” perspective.

Palavras-chaves: Fernando Pessoa; Saramago; heteronímia; personagem; intertextualidade.

Keywords: Fernando Pessoa; Saramago; heteronym; characters; intertextuality.

Fernando Pessoa, em uma de suas muitas definições sobre a questão da heteronímia, diz que seus heterônimos são “personagens fictícias sem drama” (PESSOA, 1986, p.87). São personagens que fazem poemas.Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, Saramago se apropria do mais clássico dos heterônimos e insere este personagem em uma narrativa. Se o poeta envia Ricardo Reis para o Brasil, o romancista leva-o de volta a Portugal. O médico que escreve poesias vive suas últimas aventuras em Lisboa, no ano de 1936. Quando Saramago se apropria do heterônimo de Pessoa e “lhe dá vida” no romance, Ricardo Reis deixade ser uma personagem pessoana e passa a ser outra, mas uma outra que ora se aproxima, ora se distancia da original. Saramago afirma que O Ano da Morte começou a ser escrito nas longas horas noturnas que passou em bibliotecas públicas, quando tinha uns 17 anos, lendo ao acaso, sem orientação. Revela que encontrou uma revista com poemas assinados por Ricardo Reis e pensou que existia mesmo emPortugal um poeta que assim se chamava. Mais tarde,



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Ricardo Reis: ente a heteronímia e a personagem ficcional

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Nau Literária
descobriu que o verdadeiro autor era Fernando Pessoa, e este assinava poemas “com nomes de poetas inexistentes nascidos na sua cabeça” (SARAMAGO, 1998). Assim como Pessoa tem várias explicações a respeito do fenômeno heteronímico, o mesmo acontece quando opoeta relata como surgiu “dentro dele” cada um dos poetas. Ricardo Reis teria surgido em 1912, “quase por acaso”, quando Fernando Pessoa teve a idéia de “escrever uns poemas de índole pagã”, é o que ele diz na famosa carta escrita em 1935 a Aldolfo Casais-Monteiro, e afirma ainda: “tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis” (PESSOA, 1986, p.96). No mesmo texto, o poeta conta que oheterônimo em questão teria surgido no mesmo dia que o mestre Caeiro e Álvaro de Campos, naquele que teria sido o dia triunfal de sua vida: 8 de março de 1914. De acordo com Pessoa, Ricardo Reis foi educado em um colégio de jesuítas, recebendo, pois, uma formação clássica, latinista e imbuída de princípios conservadores, elementos que são transportados para a sua concepção poética. Ricardo Reis foi um poetaneoclássico, um erudito que insistia na defesa dos valores tradicionais, tanto na literatura quanto na política. Foi pelas suas convicções monárquicas que emigrou para o Brasil em 1919, após a implantação da República em Portugal. Ficção da ficção, Saramago dá continuidade à biografia inacabada do heterônimo Ricardo Reis e, para ele, o médico que escreve poesias vive suas últimas aventuras...
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