A ordem do discurso

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A ordem do discurso: da participação à política*
 
The order of discurse: from participation to politics
 
 
Andre Corten
Professor de Ciência Política e de Análise do Discurso na Universidade de Quebec (Montreal) e pesquisador-visitante no CEDEC
 RESUMO
Com base na Análise do Discurso e com referência ao caso brasileiro argumenta-se que a participação política deve ser pensada na suadimensão discursiva, como secularização do "efeito de piedade" próprio ao discurso teológico.
ABSTRACT
On the basis of Discourse Analysis and with regard to the Brazilian case it is argued that political participation should be seen in its discourse dimension, as secularization of the "piety effect" which is distinctive of the theological discourse.
 
A participação é um termo muito presente novocabulário político brasileiro (e latino-americano), especialmente na expressão "democracia participativa" (Benevides, 1991). No esquema ético-político da esquerda brasileira a participação política é buscada como um fenômeno expressivo1. Num modelo político representativo, contudo, a participação com freqüência é puramente instrumental. Ela visa conferir legitimidade aos dirigentes esustentá-la. A democracia participativa existe, quando muito, no nível da política local (Jacobi, 1994).
A participação não passaria então de uma utopia? Ela é uma utopia na medida em que a participação na política nacional só existe de maneira muito limitada, mas sobretudo porque ela não pode desenvolver-se, devido a uma "ordem determinada do discurso"2. É uma utopia no sentido de Mannheim (1930). Tendo-sedemonstrado como a participação é impossível numa ordem dada do discurso pode-se enfrentar como ela seria possivel quando essa ordem não mais se impõe. O Brasil está realmente determinado por essa ordem? Se não, a utopia estaria nele mais próxima?
Não existe a participação na política porque ela não corresponde ao modo de funcionamento atual do discurso social3 (Angenot, 1988) tal como pode serdefinido a partir de Hobbes e de Austin. É urna utopia (não-realizável) em política porque resulta, no interior do discurso social, de um outro tipo de discurso. A participação é o "efeito" de um discurso, mas esse discurso não é o discurso político. Esse discurso é o discurso teológico. O discurso que busca as paixões das massas pode exceder o campo das religiões (Sanchis, 1995) mas ele funcionacomo um discurso teológico4.
O discurso da teologia da libertação parece ser o caso por excelência dessa "interferência", na medida em que esses teólogos politizam o discurso teológico. Esse ângulo de aproximação é em parte ilusório quando se fica adstrito à analogia léxica. A articulação entre o discurso teológico e o político no discurso social moderno dá-se no nível da circulaçãodiscursiva, Esse conceito, que se encontra em Michel Foucault (1972), em Jean-Pierre Faye (1972) e especialmente na escola francesa de Análise do Discurso (Maingueneau, 1991; Orlandi, 1987) pode ganhar em precisão quando retrospectivamente descoberto em Thomas Hobbes (1671) e em John Austin (1962).
Este texto teórico visa distinguir os diferentes tipos de discurso (político, teológico e jurídico)5 a partir dediferentes modos de circulação discursiva. Esses tipos não são dados, determinados pelo seu "conteúdo". A ordem do discurso define, num discurso social dado, os "efeitos" que podem ser esperados de cada tipo de discurso. Dois conceitos são principalmente mobilizados: modo de circulação discursiva e efeitos. Sua compreensão permite apreender como num discurso social dado a participação como efeitodiscursivo não é da ordem do discurso político, porque não é produzido pelo modo de circulação que dá ao discurso político sua especificidade. A participação pode influir tangencialmente a política quando mobiliza uma "multidão" que crê na verdade de uma versão narrativa. Essa mobilização não é em si política mas religiosa. Ela pode entrar em contradição com procedimentos políticos, em especial...
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