A epistemologia do professor

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FERNANDO BECKER (UFRG – PORTO ALEGRE/ RS)
RESUMO
Escola, conhecimento e aprendizagem
Podemos reduzir o trabalho de sala de aula a duas formas pedagógicas básicas. A primeira caracteriza-se por reproduzir o modelo que “sempre deu certo”; numa palavra, repetir o que sempre se fez, desde o século XVII. Essa forma é suportada por duas crenças: de que o conhecimento ou está pronto no meio social(empirismo) ou está pronto, como capacidade definitiva, no genoma (apriorismo ou inatismo). A segunda forma pedagógica caracteriza-se por trabalhar com a atividade do aluno, desafiando-o a pensamentos e comportamentos progressivamente autônomos. Para seguir a primeira, não é necessário munir-se de concepção teórica, com fundamentação científica. Basta seguir os costumes escolares, reproduzir o sensocomum que acredita que tudo se resolve na prática, que basta conhecer o conteúdo, ter bom senso e seguir a própria intuição: ensinar, e exigir a repetição do ensinado ou deixar que o aluno aprenda por si mesmo se ele for, presumivelmente, bem dotado. O recurso indispensável para isso é a disciplina, isto é, o controle do comportamento do aluno, de forma explícita (diretivismo) ou de forma velada(não diretivismo). Para dar conta da segunda, é necessário, ao contrário, progredir na construção de uma concepção teórica, com fundamentação multidisciplinar: psicológica, sociológica, epistemológica. Essa forma implica interdisciplinaridade, organização metodológica e disciplina intelectual. É dispensável dizer que seguir a primeira modalidade é simples e fácil. A segunda, ao contrário, é muitotrabalhosa. Embora a primeira modalidade constitua a forma incontestavelmente hegemônica de trabalho escolar (Becker, F. Epistemologia do professor; o cotidiano da escola, 13ª ed., Vozes, 2007), as limitações que ela apresenta, enquanto minimiza a criatividade, impede a invenção, esbanja energia docente com a disciplina, desperdiça energia discente com atividades repetitivas, são tambémincontestáveis. Não são poucos os defensores de tal escola que brandem o conteudismo como bandeira e até elogiam o fazer cego. “Pelas mesmas razões que não é necessário ser engenheiro automobilístico para ver quem chegou em primeiro numa corrida, podemos medir qual método alfabetiza melhor sem entender suas teorias” (Veja, 12 mar. 2008. p.20). Essa interpretação obscurantista da atividade docentecaracteriza-se por uma visão antiteórica e anticientífica do trabalho escolar. Entende que a educação é área de domínio do senso comum para a qual não se precisa de ciência. Entrega-se ao empirismo o que deveria contar com o melhor que as ciências têm produzido no âmbito de metodologias epistemologicamente críticas. Entrega-se ao apriorismo vulgar ou ao inatismo o que deveria aparecer como resultado dasconstruções humanas enquanto progridem na direção da autonomia. É comum encontrarmos professores completamente alinhados ao senso comum, empirista ou apriorista. Esta professora de quarta série do ensino fundamental, ao ser perguntada se “O conhecimento matemático pode ser transmitido?”, responde: Eu acho que são todos esses estímulos, isso que o professor faz, de mostrar as coisas [...]. Porque, porexemplo, se tu nunca sentiu o cheiro de uma maçã tu não vai conseguir ter dentro de ti a noção do cheiro da maçã, então alguém vai ter que mostrar para ti ou fazer tu sentir o cheirinho da maçã, aí é que tu vai ter isso construído [sic] dentro de ti. Então, eu acho que, é isso que nós fazemos, nós mais ou menos mostramos a “maçã”, digamos, assim… Esta pedagoga, ao ser perguntada: “Com sete anos,tu achas que a criança pode aprender álgebra?”, responde: […] acredito que elas aprendem, internalizam, armazenam e guardam dentro de um quadradinho, [de] uma gavetinha que elas têm. E, com o passar do tempo, à medida que precisarem daquele conhecimento a memória vai trazendo, se receberem algum estímulo em relação aquilo ali... A professora das três séries do ensino médio de escola estadual...
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