A ciencia etica

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  • Publicado : 5 de outubro de 2011
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Ciência Ética - Por Sérgio Greif



Certa vez uma amiga questionou em um programa de televisão “Eu só quero saber, por que que a ciência não pode ser ética?”. Embora essa não fosse uma pergunta retórica, e tenha sido repetida três ou quatro vezes durante o programa, ela ficou sem resposta por parte de seus interlocutores, praticantes de vivissecção.



Vivissecção, literalmente“cortar vivo”, é um termo genericamente usado para se referir à experimentação com animais. Diferente de seres humanos, animais vivos jamais se oferecem para participar de experimentos e, independente do fato de serem mais ou menos inteligentes, animais são organismos sencientes (ou seja, organismos dotados de sentimentos e sensações).



Todo organismo senciente tem interesses, e independente dequais sejam os interesses individuais particulares de cada espécie, todas partilham um interesse comum que é o de fugir ao sofrimento e á morte e buscar uma sobrevivência compatível com sua natureza. O confinamento de animais ou sua utilização para finalidades distintas daquelas para as quais o animal naturalmente se desenvolveu, sua submissão, seu subjugo, a aplicação de qualquer ação prejudicial aoindivíduo que seja, vão de encontro aos interesses desse indivíduo.


A utilização de animais em experimentos vai de encontro aos interesses particulares desses animais. E então retornamos à pergunta: “Por que que a ciência não pode ser ética?”. A resposta para a pergunta é que a ciência não apenas pode ser ética, a ciência deve ser ética. A ética é pressuposto da boa ciência e a ciência deveestar acima de tudo condicionada à ética.


Quando Louis Pasteur solicitou a D. Pedro que cedesse prisioneiros brasileiros para serem usados como cobaias em seus experimentos, D. Pedro cortesmente recusou. À época não havia legislação que formalmente proibisse a utilização de seres humanos como cobaias. Apesar disso, e da alegação de possíveis benefícios que poderiam advir dessesexperimentos, a idéia de pegar um ser humano saudável e utiliza-lo contra sua vontade em um experimento era extremamente repulsiva para o regente. E isso era verdadeiro mesmo considerando que as cobaias em questão seriam a “escória da sociedade”.


Em outro exemplo, mais recente, temos o histórico dos experimentos nazistas. Não é o caso, mas ainda que os experimentadores tivessem uma invejável formaçãocientífica, que seguissem protocolos experimentais amplamente aceitos e que tivessem por objetivo fazer avançar o conhecimento humano acerca de determinado tópico, não poderíamos considerar que o que se praticou em campos de concentração fosse boa ciência.


O questionamento está acima do questionamento metodológico ou da finalidade dos experimentos. É muito anterior e mais urgente. Faz-senecessário questionar o objeto de estudo, os meios que se utilizou para chegar àqueles fins. A ciência nazista não seria boa ciência nem que 60 anos depois pudéssemos considerá-la útil. Foi inútil, mas mesmo que tivesse sido o contrário continuaria questionável.


E pouco importaria se os advogados de defesa no julgamento de Nuremberg lançassem mão de argumentos referentes à possível utilidadedaqueles experimentos, e quantas pessoas poderiam se beneficiar dos mesmos no futuro, porque nada apaga o fato de que aquelas pessoas não deveriam ter sido utilizadas como cobaias.


Note-se, portanto, que quando trabalhamos com casos de experimentação anti-ética em seres humanos não estamos prontos a aceitar argumentos utilitaristas, sobre o pequeno número de vidas que precisaram ser sacrificadaspara beneficiar tantas outras. Isso porque o pensamento utilitarista contraria os direitos individuais.


É impensável, por exemplo, que se proponha como solução para deter o avanço da AIDS a eliminação de todos os portadores do vírus HIV. Embora essa medida fosse provavelmente efetiva para atingir essa finalidade, o preço em vidas torna-a inaceitável. Citando Cícero “A mera idéia de que...
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