Resenha encontrada do mil platos

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MANA 4(2):143-167, 1998

RESENHAS

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. 1995-1997. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34. 715 pp.

Ovídio Abreu Filho
Prof. de Antropologia, UFF

Em 1997, publicado seu quinto volume, concluía-se a edição brasileira de Mil Platôs, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, que se iniciara em 1995. O intervalo entre a edição originaldessa obra, que é de 1980, e a de sua tradução completa para o português não deixa de revelar as dificuldades na recepção desse livro que faz avançar o trabalho de criação de uma nova imagem do pensamento e que questiona os pressupostos dominantes na filosofia e nas ciências humanas: a crença em uma tendência natural do pensamento para a verdade, o modelo do reconhecimento e a pretensão de umfundamento. Mil Platôs, que compartilha com O Anti-Édipo o subtítulo Capitalismo e Esquizofrenia, não é uma continuação linear das teses propostas no livro de 1972: de um volume a outro há mudança de tom e avanços da criação. Mesmo que pudéssemos imaginar que o AntiÉdipo tivesse como subtítulo “pela filosofia”, nele a construção ético-filosófica se fez através de uma crítica. Mil Platôs, ao contrário, éum livro fundamentalmente positivo: não estamos mais dian-

te de uma crítica do Édipo, e sim da construção do conceito de multiplicidade, para além da oposição do Um e do Múltiplo, e dos dualismos da consciência e do inconsciente, da natureza e da história, do corpo e da alma. A teoria da multiplicidade efetua uma interpretação do real que conjuga uma construção ontológica e uma leitura domundo e da sociedade que surpreende com uma nova distribuição dos seres e das coisas: não admite unidade natural, uma vez que não se apóia em nenhuma necessidade e não visa a nenhum prazer; não reconhece a falta, uma vez que não se constitui em referência a uma unidade ausente (recusando, pois, a noção de desejo como falta); e não aceita nenhuma transcendência – seja na origem, como idéia ou modelo,seja no destino, como sentido historicamente desenvolvido. A perspectiva da imanência e o conceito de multiplicidade fazem do pensamento uma atividade ética – sem modelos e finalidades transcendentes – avessa a qualquer conforto moral ou orientação histórica. Mil Platôs é composto de quinze “platôs”, conceito que, tomado de empréstimo a Bateson, designa uma estabilização intensiva e, no caso, umamultiplicidade conceitual. Pois os conceitos, para Deleuze e Guattari, devem determinar não o que é uma coisa, sua essência, mas suas circunstâncias. Explica-se, assim, que cada platô possua um

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título relacionado a uma data. Os títulos enunciam um campo de problemas e as datas indicam que se pretende determinar a potência e os modos de individuação de um acontecimento. Cadaplatô realiza um mapeamento, cujos movimentos descrevem um mesmo percurso: parte-se do interior de um ou mais estratos e de seus dualismos na direção de suas condições de possibilidade, das “máquinas abstratas” que os efetuam e os determinam como atualizações; simultaneamente, os estratos são associados aos agenciamentos de poder que lhes são anexos e primeiros; por fim, em um outro giro, opensamento contorna as máquinas abstratas e as remete a um plano de consistência a que se acede por desestratificação: revela-se assim, nesse percurso, a heterogeneidade, a coexistência, as imbricações e a importância relativa das diferentes linhas que compõem uma multiplicidade. E ainda que a edição brasileira tenha subdividido o original em cinco volumes, percebe-se que os editores buscaram recortar olivro de acordo com uma certa unidade de problemas. O primeiro volume contém, além do prefácio à edição italiana (onde os autores avaliam a novidade e a recepção do livro), uma apresentação da ontologia das multiplicidades. Na Introdução: Rizoma, recusa-se a idéia do pensamento como representação, sua submissão à lei da reflexão e da unificação, e apresenta-se Mil Platôs como livro-rizoma que,...
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