Reforma do pensamento

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Extraído do livro


A CABEÇA BEM-FEITA

Edgar Morin
Editora: Bertrand Brasil, 1999
pp 87-97













A REFORMA DE PENSAMENTO
Extraído do livro : A Cabeça Bem-Feita,
Edgar Morin; Editora Bertrand Brasil, 1999; pp. 87-97.


“Sei tudo, mas não compreendo nada”


Rene Daumal


Recordemos osegundo e o terceiro princípios do Discurso sobre o Método1:
- “Divisar cada uma das dificuldades, que examinarei em tantas parcelas quanto seja possível e requerido para melhor resolvê-las...”
- “Conduzir meus pensamentos por ordem, começando pelos assuntos mais simples e mais fáceis de conhecer, para atingir, pouco a pouco, como que degrau por degrau, o conhecimento dos assuntos maiscomplexos...”
No segundo principio encontra-se, potencialmente, o principio da separação, e no terceiro, o principio de redução; esses princípios vão reger a consciência cientifica.
O principio de redução comporta duas ramificações. A primeira é a redução do conhecimento do todo ao conhecimento adicional de seus elementos. Hoje em dia, admite-se cada vez mais que, como indica a já citada frase dePascal, o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo, como o conhecimento do todo depende do conheci-

(1) “O primeiro é nunca aceitar coisa alguma como verdadeira, se não a souber comprovadamente como tal; isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção... O último é fazer, em tudo, um levantamento tão completo e um exame tão amplo, que eu esteja certo de não teromitido nada


mento das partes. Por isso, em várias frentes do conhecimento, nasce uma concepção sistêmica, onde o todo não é redutível às partes.
A segunda ramificação do principio de redução, tende a limitar o conhecimento ao que é mensurável, quantificável, formulável, segundo o
axioma de Galileu: os fenômenos só deve ser descritos com a ajuda de quantidades mensuráveis. Deste então, aredução ao quantificável condena todo conceito que não seja traduzido por uma medida. Ora nem o ser, nem a existência, nem o sujeito podem ser expressos matematicamente ou por meio de fórmulas. O que Heidegger chama de “a essência devoradora do cálculo” pulveriza os seres, as qualidades e as complexidades e, ao mesmo tempo, leva à “quantofrenia” (Sorokin) e à “aritmomania” (Georgescu-Roegen). Esseprincipio ainda se impõe na tecnociência; mas torna-se questionado, em profundidade, na medida em que a própria tecnociência é questionada com profundidade.
Hoje, esses princípios revelaram suas limitações, e é preciso recorrer ao principio de Pascal, que citamos uma vez mais: “como todas as coisas são causadas e causadoras ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e
todas são sustentadaspor um elo natural e imperceptível, que liga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes.”
Há, efetivamente, necessidade de um pensamento:
- que compreenda que e conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e que o conhecimento do todo depende doconhecimento das partes;
- que reconheça e examine os fenômenos multidimensionais, em vez de isolar, de maneira mutiladora, cada uma de suas dimensões;
- que reconheça e trate as realidades, que são, concomitantemente solidárias e conflituosas (como a própria democracia, sistema que se alimenta de antagonismo e ao mesmo tempo os regula);
- que respeite a diferença, enquanto reconhecea unicidade.
É preciso substituir um pensamento que isola e separa por um pensamento que distingue e une. É preciso substituir um pensamento disjuntivo e redutor por um pensamento do complexo, no sentido originário do termo complexus: o que é tecido junto.
De fato, a reforma do pensamento não partiria de zero. Tem seus antecedentes na cultura das humanidades, na literatura e na...
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