Pastoral urbana no mundo

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  • Publicado : 17 de abril de 2012
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Teologia no Contexto Urbano



Escrito por: Nélio Schneider


1. Introdução

Quando a Bíblia fala da cidade via de regra usa conceitos de valor e revela uma postura em relação à mesma. Desde a crítica vinda do campo e da periferia (p. ex. Gn 11.1-7; Mt 23.33-38; Mt 11.20-24) e também de dentro da cidade (p. ex. Is 1.21-26) até a utopia da cidade de Deus (p. ex. Is 65.17-2; Ap 21.1-8),passando pela tentativa de salvar a cidade (p. ex. Gn 18.16-33; Lc 19.41-48), nenhuma dúvida subsiste a respeito do que o autor do texto pensa da cidade. Estes textos mexem com nossas emoções e preparam o nosso estado de espírito para nos "confrontarmos" com o urbano. Eles criam um clima de rejeição e compaixão, juízo e esperança, realidade nua e crua e utopia esperada. Eles nos ajudam a tomarposição em relação ao tema. Animam a denunciar e anunciar. Porém, ficam devendo a resposta quando perguntamos pelo "como", pelo modo de proceder dentro do urbano. Mas, quando se trata do envolvimento prático no mundo urbano, precisamos saber como ir além do sentimento e da emoção.

Voltemos nossa atenção para o processo que se deu quando o evangelho ingressou no mundo das grandes cidades gregas eromanas. Sabemos que, a certa altura, a mensagem do reino de Deus transpôs os limites interioranos da Palestina e se espalhou pelo mundo urbano antigo. Muitas pessoas estiveram por trás dessa irradiação da mensagem evangélica. De Antioquia na Síria até Roma na Itália, passando por Éfeso na Ásia Menor, Corinto na Grécia, Filipos e Tessalônica na Macedônia e Alexandria no Egito, o anúncio sobreJesus Cristo foi acompanhando as grandes rotas comerciais da época, que interligavam os grandes centros urbanos por mar e por terra. Menos de vinte anos após a ressurreição de Cristo havia pequenas comunidades cristãs por todo o mundo urbano mediterrâneo e até além dele. O que chama a atenção não é o tempo nem a amplitude da divulgação. Vinte anos é um tempo razoável e o tamanho das comunidades emrelação à população das respectivas cidades não deve ter sido muito significativo. O aspecto intrigante exatamente é que a mensagem evangélica encontrou ressonância num meio totalmente diferente do de sua origem e logrou fazer a cabeça e o coração de pessoas da pólis e da urbs, as quais a princípio nem eram visadas. Como aconteceu isto?

A resposta deve ser a mais abrangente possível. Mas, noespaço deste artigo, somente vamos poder realizar uma abordagem parcial, construindo em cima do que outros já elaboraram. Para fazer um início mais ou menos seguro, vamos considerar o que podemos conhecer melhor: a atividade de Paulo de Tarso. Não sabemos o que ele pensava da cidade em si. Assim, ele não nos irá predispor ou indispor de antemão contra ela. Ele, provavelmente, cultivava uma utopia dacidade de Deus (Fp 3.20), mas não nos dá nenhuma descrição dela. Assim, ele não nos fará sonhar. Ele não conhecia um conflito "campo-cidade"; parece que, para ele, além da cidade e do mar, só existia ainda o "deserto" (2 Co 11.26).

Mas, por isso mesmo, ele pode nos ajudar. Como cristão urbano, nascido numa grande cidade do seu tempo, artesão livre, ele escreve aos filipenses simplesmente:"Exerçam a sua cidadania (politeúesthe! ) de maneira digna do evangelho de Cristo!" (Fp 1.27 ; compare com 1 Ts 2.12) Aqui é preciso embarcar na perspectiva correta: Paulo não escreve estas palavras para pessoas que vêm de fora da cidade, animando-as a serem, dali em diante, cidadãs. Ele escreve, antes, para pessoas cidadãs, que de qualquer modo iriam exercer a sua cidadania, animando-as a fazê-lo demodo a corresponder ao evangelho de Cristo. Ou seja: aqui não se coloca a questão da legitimidade ou mesmo da possibilidade da cidadania. Ela é pressuposta como um dado vital . A questão em pauta é a maneira de viver na cidade, ou: O que faz a diferença, agora que o critério se tornou o evangelho de Cristo?

Acho saudável não começar com um juízo de valor, mas assumir, a princípio, a cidadania...
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