Historia

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  • Publicado : 18 de abril de 2012
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Leia trecho da introdução de "A Civilização Feudal" (ed. Globo), de Jérôme Baschet:

Introdução
Por que se interessar pela europa medieval?

A Idade Média tem má reputação. Talvez, mais do que qualquer outro período histórico: mil anos de história da Europa Ocidental, entre os séculos V e XV, entregues às idéias preconcebidas e a um menosprezo inextirpável, cuja função é, sem dúvida,permitir que as épocas ulteriores forjem a convicção de sua própria modernidade e de sua capacidade em encarnar os valores da civilização. A obstinação dos historiadores em desafiar os lugares-comuns não fez nada contra isso, ou muito pouco. A opinião comum continua sendo associar a Idade Média às idéias de barbárie, de obscurantismo e de intolerância, de regressão econômica e de desorganização política.Os usos jornalísticos e da mídia confirmam esse movimento, fazendo apelo regularmente aos epítetos "medieval", ou mesmo "medievalesco", quando se trata de qualificar uma crise política, um declínio dos valores ou um retorno do integralismo religioso.

A construção da idéia de Idade Média

É verdade que a imagem da Idade Média é ambígua. Na Europa, pelo menos, os castelos fortificados atraem asimpatia dos alunos e os cavaleiros da Távora Redonda têm ainda alguns adeptos, enquanto a organização de torneios cavaleirescos ou de festas medievais parece ser um eficaz argumento turístico, inclusive nos Estados Unidos. Crianças e adultos visitam as catedrais góticas e são impressionados pela audácia técnica de seus construtores; os mais espirituosos impregnam-se com deleite da pureza místicados monastérios românicos. O caráter bizarro das crenças e dos costumes medievais excita os amadores do folclore; a paixão pelas raízes, exacerbada pela perda generalizada de referências, empurra em massa para essa idade recuada e misteriosa. Já o romantismo, no século XIX, tomando o contrapé do Iluminismo, comprazeu-se em valorizar a Idade Média. Enquanto Walter Scott dava sua forma romanescamais acabada a esse entusiasmo cavaleiresco (Ivanhoé), teóricos como Novalis ou Carlyle opunham o maravilhoso e a espiritualidade medievais ao racionalismo frio e ao reino egoísta do dinheiro, característicos de seu tempo. Do mesmo modo, Ruskin, que via na Idade Média um paraíso perdido do qual a Europa havia saído somente para cair na decadência, chegou a retomar a expressão "Dark Ages" --com aqual o Iluminismo denegria os tempos medievais--, mas para aplicá-la, a contrapelo da visão moderna, à sua própria época. Todo o século 19 europeu cobriu-se de um manto cinza de castelos e de igrejas neogóticas, fenômeno no qual confluem a nostalgia de um passado idealizado e o esforço da Igreja Romana para mascarar --sob as aparências de uma falsa continuidade, da qual o neotomismo é um outroaspecto-- as rupturas radicais que a afirmação da modernidade capitalista a obrigava a aceitar então.

Faz agora dois séculos, ao menos, que a Idade Média é balançada de um extremo a outro, sombrio contraponto dos partidários da modernidade, ingênuo refúgio daqueles a quem o presente moderno horroriza. Existe, de resto, um ponto comum entre a idealização romântica e os sarcasmos modernistas: sendo aIdade Média o inverso do mundo moderno (o que é inegável), a visão que se oferece dela é inteiramente determinada pelo julgamento feito sobre o presente. É assim que uns a exaltam para melhor criticar sua própria realidade, enquanto outros a denigrem para melhor valorizar os progressos de seu tempo. Se convém, agora, acabar com os julgamentos sumários sobre o "milênio obscurantista", não sepretende substituí-los pela imagem de uma época idílica e luminosa, de florescimento espiritual e progresso partilhado. A questão não é a reabilitação da Idade Média, ainda que não fosse totalmente inútil chegar a um certo reequilíbrio na comparação com uma Antiguidade militarista e escravagista, abusivamente ornada, pela burguesia dos séculos 18 e 19, de virtudes ideais de um classicismo imaginado, ou...
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