Filosofia e literatura

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 9 (2209 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 5 de dezembro de 2011
Ler documento completo
Amostra do texto
Introdução
Filosofia e literatura estiveram mais próximas que distantes na longa trajetória
intelectual do ocidente. No Brasil, quando levamos em consideração o grande número
de centros especializados em literatura e filosofia, constatamos não ser grande o número
de pesquisas sobre a proximidade dos dois saberes, como se os estudos não pudessem
dar uma contribuição significativa aopensar filosófico e à teoria literária. Apesar de
alguns trabalhos importantes publicados nos últimos anos, ainda temos muito a
pesquisar e publicar nesta área, pois ao refletirmos sobre a interface entre filosofia e
literatura nos encontramos na longa história de ambas. Em alguns momentos desta
longa história, não é tão simples distinguir o filosófico do literário e vice-versa, talvezporque não tenhamos aprendido a pensar parte da filosofia a partir de suas formas
literárias e da literatura como imbuída de temas apresentados ou aprofundados pela
filosofia. Mas, para além das formas, constata-se que a relação entre filosofia e literatura
não se restringe às formas literárias da filosofia ou à influência desta na literatura. Há
momentos de verdadeira fusão entre uma e outrae nisto consiste também parte da
história de ambas.
Tentativas de delimitação
A relação entre filosofia e literatura pertence à história de ambas em sua
especificidade e em alguns momentos ambas confundem-se, pois muitas vezes o pensar
filosófico se dá na literatura e a literatura refrata os grandes debates desenvolvidos na
filosofia. O que nos interessa centralmente no presenteartigo não é tanto a delimitação
entre a filosofia e literatura, onde iniciaria uma e terminaria a outra, mas o que podemos
aprender das “partilhas do saber”, segundo Foucault, presentes em ambas. Alguns
estudos sobre filosofia e literatura ainda centram seus esforços em delimitar uma e outra
a partir da relação entre conteúdo e forma:
O grande perigo dessas análises, a saber: tornar osfilósofos especialistas na
invenção de conteúdos teóricos, mais ou menos incompreensíveis, e os
escritores, especialistas em formas lingüísticas, mas ou menos rebuscadas.
Assim, só caberia aos escritores e aos poetas traduzir de maneira mais
agradável aquilo que os filósofos já teriam pensado de maneira complicada
ou ‘abstrata’, como se diz às vezes. No limite, isso significa que os filósofossabem pensar, mas não conseguem comunicar seus pensamentos, que não
sabem nem falar nem escrever bem; e que os escritores sabem falar bem,
sabem se expressar, mas não têm nenhum pensamento próprio consistente.
(GAGNEBIN, 2006, p. 202)
Para além desta delimitação que serve sempre a interesses de domínios de
reduto, a visões reducionistas tanto nas teorias literárias quanto em algumasabordagens
filosóficas, parto do princípio que a poesia – entendida aqui como linguagem
fundamental da arte -, a literatura contribui para a própria história do pensamento, é o
pensamento em articulação e de grande interesse para outras formas de sua constituição
e estruturação, neste caso a filosofia. Pressupõe-se, portanto, a pertença e relação, não o
esforço artificial de uma à busca daoutra. E isto porque temos várias páginas da história
da filosofia e da literatura que evidenciam fusão algumas vezes, o diálogo outras vezes.
A relação entre filosofia e poesia começa a ser problematizada em Platão, que
entende a poesia a partir da relação entre a realidade eterna e suas idéias perfeitas e as
ilusões do mundo material mutável. O artista não mereceria um lugar naRepública por
ser um imitador de nível inferior, alguém que poderia, inclusive, corromper a
compreensão da juventude por lançar mão da ilusão como forma de representação. Ao
mesmo tempo, porém, Platão elabora a sua filosofia em grande parte em forma de
diálogos, o que o torna um crítico da arte ao mesmo tempo em que escrevia a filosofia
em forma que poderíamos denominar de literária. Existe,...
tracking img