Conceito de tempo na filosofia e literatura

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  • Publicado : 23 de fevereiro de 2013
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O conceito de tempo na literatura e na filosofia

O senso comum entende o tempo como um conceito adquirido por experiências. Experiências estas sequenciais e ordenadas. Visto como processo linear e teleológico pelos cristãos, a concepção do tempo tem sido muito discutida desde o início da cultura ocidental. Os cristãos baseiam-se em acontecimentos singulares, como por exemplo, o marco docristianismo: o nascimento, crucificação e ressurreição de Cristo. São acontecimentos únicos. Também o apocalipse descreve o fim do mundo encerrando um ciclo que não mais irá se repetir. Já a filosofia oriental, apoia que o tempo, bem como o espaço, são construções da mente humana. Acreditam na circularidade do tempo. Esta ideia apareceu naturalmente em função dos inúmeros fenômenos periódicosocorrentes na Natureza: movimento da Terra, as estações do ano, os dias sendo sucedidos pelas noites... Esses fatos naturais sobre a circularidade do tempo conduziram as civilizações antigas, e seus pensadores a imaginarem que o tempo também seria circular, ou seja, a evolução da natureza seria baseada na repetição. A ideia de um tempo linear progressivo, sem retornos, e a ideia de que o tempo é cíclicomarcado pelo devir é discutida não somente na filosofia. Permeia também a literatura.
Considerando que tanto a literatura quanto a filosofia tem o papel de indagar, questionar o que é dado como padrão ou normal, pode se afirmar que literatura e filosofia se complementam, dialogam entre si. Partindo desse ponto, a questão é: qual a perspectiva da literatura sobre essa temática? Como a filosofiae a literatura realizam esse dialogo sobre essas diferentes visões, ocidental e oriental, sobre o tempo? Para discutir essa questão destacarei três autores: Heráclito, Guimarães Rosa e Borges.
À primeira vista, pode parecer que nada têm em comum esses três nomes. O primeiro pertence ao início da filosofia, é um filosofo da natureza; outro representa um dos maiores nomes da literaturabrasileira e Borges grande nome da literatura argentina que dispensa comentários. Ainda assim, uma relação é possível. Pois são três autores que vão de encontro, ainda de formas distintas, a essa concepção teleológica ocidental. E se a filosofia, como destaquei acima, é complementada pela literatura e vice-versa, a comparação é válida.
O seguinte sentido é conferido por Heráclito de Éfeso sobre o tempo:“O tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras para lá e para cá; governo de criança”. (Os filósofos pré-socráticos, p. 39). Heráclito diz que o tempo não segue a uma sequencia de acontecimentos, é acidental como o jogar de dados por uma criança. Ainda sobre o tempo, mas analisando o aspecto das mudanças que o tempo proporciona sobre nós, há um fragmento de Heráclito que diz: “ninguém sebanha duas vezes no mesmo rio”. Aqui Heráclito queria notar a mudança constante das coisas, e o rio lhe serviu como comparação. Ao longe parece estar estagnado, mas quando nos aproximamos somos testemunhas do deslocamento incessante das aguas. Toca-nos para em seguida partir. Borges nota que “o rio muda o tempo inteiro”. Não só ele. Nós também mudamos. Na segunda vez que entramos tanto nós quanto orio somos um outro.
“Fitar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água. ( Borges, A arte Poética)
“Rio feito de tempo e agua”. O rio não é constituído somente por água; na fluidez da água está a fluidez do tempo – de um tempo que não é uma sequencia de eventos ou momentos, mas um marco dos momentosque se passam: o tempo não são os momentos, mas esta presente entre um momento e outro. O tempo é outro rio, e flui por si, sem ser sustentado nem fundado: atua por si só. Atua e deixa marca sobre as pessoas. “E que os rostos passam como a agua.”
Vale mencionar que o pensamento de Heráclito é a base dentro da doutrina do eterno retorno e isso porque na perspectiva de Nietzsche tudo é um eterno...
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