Filosofia da ciencia - resenha critic

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  • Publicado : 13 de novembro de 2012
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aA imaginação
Gauss afi rmou: “As soluções, eu já possuo há muito tempo, mas ainda não sei como cheguei a elas”. (p. 145)
Diante dessa afirmação, Rubem Alves questiona: “Como é possível que alguém chegue a um destino sem ter consciência do caminho seguido?” Conclui Alves: “Está em xeque a questão do método, tão cuidadosamente embalada pela ciência. Há, mesmo, certa tendência a identifi carciência com o método científi co”. (p. 147)
Como a ciência não pode ser defi nida em função de seu conteúdo, pois ele tem sofrido profundas revoluções ao longo da história, é defi nida por seu método.
Que é método? Paul Edwards nos ensina que “o termo ‘método’ signifi ca, literalmente, ‘seguindo um caminho’ (do grego méta, ‘junto’, ‘em companhia’, e hodós, ‘caminho’), refere-se à especifi cação dos passosque devem ser tomados, em certa ordem, a fi m de alcançar-se determinado fi m”. (p. 149)
Mas Gauss, na declaração citada, está declarando: “Cheguei lá sem seguir caminho algum, premeditadamente. Estou pensando para ver se descubro o método...”Karl Popper concorda: “Não existe aquilo a que poderíamos chamar de um método lógico para ter novas idéias”. (p. 150) Michael Polanyi mantém opiniãosemelhante: “O advento de um pensamento feliz é fruto dos esforços anteriores do investigador, mas não é, em si, uma ação de sua parte. Ao contrário, trata-se de algo que acontece a ele...” (p. 150)
Alves observa que esse ponto de vista é muito perturbador, porque parece equiparar o ato pelo qual um cientista defronta com uma idéia seminal à experiência de iluminação espiritual de místicos e videntes: umato de graça, uma surpresa, uma revelação.
Feyerabend sugere, claramente, que a idéia de um método científi co não passa de um mito que não resiste à investigação histórica:
A idéia de um método que contenha princípios científicos inalteráveis e absolutamente obrigatórios que rejam os assuntos científicos se defronta com dificuldades ao ser confrontada com os resultados da investigação histórica.Descobrimos que não existe uma única regra,
por mais plausível que pareça, por mais alicerçada sobre a epistemologia, que não seja desrespeitada numa ou noutra ocasião. É evidente que tais transgressões não ocorrem acidentalmente [...] mas são, antes, necessárias ao progresso. (p. 151)
O fato é que os cientistas, freqüentemente, se vêem incapazes de explicar como as idéias lhe ocorrem.
Elassimplesmente aparecem, repentinamente, sem que tenham sido construídas, passo a passo, por um procedimento metodológico. O que Gauss, Popper, Polanyi e Feyerabend fazem, portanto, é simplesmente confessar a presença de um fato imponderável no trabalho científi co: a criatividade. Lecky diz, mesmo, que “um sistema científico é sempre o resultado de uma atividade criativa”. (p. 152)
Outro aspectodeve ser analisado: em todo ato de verdadeira criação científi ca, quando uma nova visão do mundo é criada, existe um salto qualitativo. É necessário abandonar todos os auxílios do passado, porque o novo não é uma versão melhorada do velho.
Isso desagrada aos ouvidos empiristas e positivistas. Eles adotaram um programa de austeridade e sanidade: liquidar a imaginação, porque é dela que surgem osfantasmas que perturbam o conhecimento. Foi por isso que Bacon fez um inventário dos ídolos, a “lista negra” dos inimigos do saber, emissários dos subterrâneos dos desejos, intrometidos no mundo austero e calmo do conhecimento científico.
A pura imaginação perde, assim, irrevogavelmente, sua antiga supremacia e se subordina, necessariamente, à observação. Com isso, os cientistas passaram a imaginarque eles pensam de maneira diferente dos seres humanos comuns. Desligaram-se do “senso comum”. Enquanto o senso comum pensa a partir de emoções e desejos, o cientista é totalmente objetivo.
A pergunta que surge é: será que seu pensamento é realmente objetivo, ou sua pretensa objetividade não passa de um sonho, de uma ilusão de alguém que gostaria de ser um pouco mais que os demais mortais?
Não...
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