Entrevista referente ao aborto

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  • Publicado : 4 de outubro de 2012
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Duas mulheres que foram estupradas e engravidaram falam à Marie Claire sobre o trauma da agressão e o desespero ao ver que o pesadelo ainda não tinha acabado. Uma optou por fazer o aborto legal, como a maioria das vítimas nessa situação. A outra escolheu ter a criança, uma menina que hoje tem 28 anos. Por Rosane Queiroz
Leia aqui lista com 17 hospitais em todo o Brasil que realizam o abortoprevisto por lei
Mulheres que passaram pela violência de um estupro lidam com um temor ainda maior: o de ter gerado um filho do agressor. O Hospital do Jabaquara, em São Paulo, pioneiro na realização de aborto em casos de gravidez pós-estupro, atendeu, desde agosto de 1989, 141 vítimas que optaram por interromper a gravidez, amparadas pela lei. A média é de um atendimento por mês. Elas chegam comhematomas e outros sinais externos de agressão física, mas também com marcas profundas. Medo, depressão e revolta se misturam à angústia de ter um filho indesejado e ainda por cima de um homem que, muitas vezes, nem sequer viram o rosto ou sabem o nome. “Em uma gravidez, a mulher doa seu corpo, sua alma, seu carinho. Nesse caso, em que um filho é gerado numa situação de horror, é difícil existirafeto e mesmo identificação da mãe com a criança”, diz a assistente social Irotilde Gonçalves Pereira, do programa de atendimento às vítimas no Hospital do Jabaquara.
A maioria das vítimas opta pelo aborto. “O feto se torna a representação do estupro e a mulher nega essa relação. O trauma se sobrepõe ao apelo da maternidade, que também é muito forte”, diz a psicóloga Rosane Teixeira, do programa deatendimento às vítimas de violência sexual do hospital. Em 12 anos de funcionamento, apenas quatro mulheres atendidas no serviço do Jabaquara não quiseram interromper a gravidez. Outras desaparecem após o diagnóstico e decidem o que fazer sozinhas. Muitas chegam ao hospital quando não é mais seguro fazer o aborto. Pela lei, a gravidez pode ser interrompida até a 12a semana de gestação. Aconfirmação tardia da gravidez quase sempre acontece pelo fato de as mulheres atribuírem o atraso menstrual ao trauma.
Para aquelas que decidem ter a criança ou não podem mais abortar, os nove meses de gestação são um tormento. “É traumático, elas não vêem a hora de a criança nascer e vão embora sem nem olhar para o bebê”, relata a assistente social Irotilde, que nesses casos se encarrega de encaminhar acriança para um serviço de adoção. Ela vivenciou situações dramáticas, como a de uma paciente que implorou pelo aborto ao saber que estava grávida do estuprador: “Tire esse lodo de dentro de mim”. É a expressão maior do medo de ter um filho com a cara do agressor e de ver perpetuada a lembrança de algo que desejam esquecer. Giovana (o nome foi mudado, a pedido da entrevistada), uma empregadadoméstica de 40 anos, recorreu ao serviço do Hospital do Jabaquara em agosto do ano passado, dois meses depois do estupro. Em nenhum momento cogitou levar a gravidez adiante: “O aborto foi um alívio”, garante ela, mãe de um rapaz de 20 anos.
“Nunca tive dúvidas em relação a esse aborto. Não pensei em nenhum momento em ter aquele filho, nem consegui pensar naquilo como uma criança. No dia da cirurgia,chorei muito, mas de raiva por tudo o que tinha me acontecido. Não desejo isso para ninguém. Em junho do ano passado, eu estava sozinha em um ponto de ônibus no Capão Redondo (periferia de São Paulo), voltando do serviço. Eram quase 11 horas da noite, quando parou um Fusca velho no local e de dentro saiu uma pessoa com uma touca tampando o rosto. Era um homem, que usava uma jaqueta de couro. Ele meapontou um revólver e me forçou a entrar no carro. Não sei para onde me levou. Só me lembro que pegou uma estrada e que parou em um lugar escuro, tipo um matagal.
Tudo aconteceu dentro do carro. Ele falava pouco, eu tentava gritar, ele tampava minha boca e ameaçava me matar. Foi tudo muito rápido e horrível. Ele só deixou a arma quando veio para cima de mim. Nem tirou a touca. Pelos braços e...
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