Economia

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A TEORIA DAS VANTAGENS COMPARATIVAS DE RICARDO
Apesar de ter influenciado várias publicações sobre economia internacional que apareceram depois da publicação de A Riqueza das Nações,4 ao observador moderno parece claro que a defesa smithiana do livre comércio — baseada na teoria das vantagens absolutas — era claramente insuficiente, tendo em vista as necessidades da ascendente burguesiaindustrial inglesa, em luta não apenas contra o intervencionismo estatal e as práticas mercantilistas que ainda prevaleciam em fins do século XVIII e princípios do século XIX, mas também para fortalecer a sua posição no cenário internacional.
Para começar, a teoria do comércio internacional de Adam Smith mostrouse vulnerável ao "argumento da indústria infante", que estabelece que, mesmo aceitando-se atese de que o livre comércio traz ganhos aos parceiros comerciais envolvidos, ainda assim seria possível afirmar que justificar a proteção de dado setor pelo período de tempo necessário para que ele adquirisse a capacidade de competir com sucesso nos mercados interno e externo.5
Em segundo lugar, na hipótese de determinado país possuir vantagens absolutas em setores onde a demanda mundial forpequena ou até nem mesmo possuir quaisquer vantagens absolutas, a teoria smithana deixava implícita a conclusão de que o país seria arruinado pelo livre comércio, sendo eventualmente excluído da economia internacional. Além disso, no contexto de vantagens absolutas, países não produtores de ouro que apresentassem déficits permanentes na balança comercial, seriam obrigados a restringir o seu ritmo decrescimento econômico ou mesmo os níveis de renda e de emprego. Finalmente, a crença smithiana em economias crescentes de escala — explicitada no famoso exemplo da fábrica de alfinete —, poderia ser facilmente transformada em argumento em favor da reserva e conquista de mercados, ou seja, do protecionismo, colonialismo e imperialismo.
O grande mérito de Ricardo foi o de apresentar uma teoria docomércio internacional — baseada no "princípio das vantagens comparativas" — que aparentemente solucionava os problemas apresentados pela abordagem smithiana, fornecendo um mecanismo automático de ajustamento do balanço de pagamentos e uma demonstração de que todos os países, independente da estrutura de custos de sua economia, ganhariam com o livre comércio.
Para esclarecer esse "princípio",Ricardo (1817, Cap. VII: 104-105) constrói um exemplo com apenas dois países — Portugal e Inglaterra — e somente dois bens — vinho e tecidos (Tabela 1), recorrendo à teoria do valor-trabalho, segundo a qual a razão de troca entre mercadorias é proporcional ao tempo de trabalho social gasto na produção delas. A explicação de não ter se utilizado a sua teoria dos "preços naturais" talvez resida nacrença de que a produtividade do trabalho é o principal determinante dos preços de equilíbrio (Ricardo, 1817, Cap. I: 56). Outra alternativa seria tornar claro que até os países sem qualquer vantagem absoluta se beneficiariam do comércio internacional.
 

 
Suponha que, conforme informa a Tabela 1, o tonel de vinho valha 80/90 = 0,888 peças de tecido em Portugal e 120/100 = 1,20 peças de tecidona Inglaterra; ou seja, uma peça de tecido valha 90/80 = 1,125 tonéis de vinho em Portugal e 100/120 = 0,8333 na Inglaterra. Assumindo, então, que esses dois países assinem um tratado de livre-comércio e que — apenas para efeitos de simplificação — os custos de transporte sejam desprezíveis, um comerciante poderia transportar 1.000 peças de tecido da Inglaterra para Portugal, onde poderiatrocá-las por 1.000 x 1,125 = 1.125 tonéis de vinho. Transportando, então, o vinho assim obtido para a Inglaterra, poderia trocá-lo novamente por tecidos, obtendo 1.125 x 1,20 = 1.350 peças de tecido. A operação, portanto, daria um ganho de 350 peças de tecido (ou 35%) toda vez que fosse realizada. De forma simétrica, um comerciante poderia obter 1.000 tonéis de vinho em Portugal, trocá-los por 1.000 x...
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