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CONSUMINDO O FUTURO

Laymert Garcia dos Santos

(Publicado originalmente em : Folha de São Paulo (caderno Mais!) 27/2/2000: 4-8. Também publicado na obra do mesmo autor “Politizar as novas Tecnologias” Editora 34, 2003; 2011)

Há poucos dias o caderno Mais! entre as “Cartas para as Futuras Gerações” que a Unesco encomendou a personalidades mundiais, um texto de Nadine Gordimerintitulado “A Face Humana da Globalização”. Nele, a questão do consumo encontra-se no cerne das preocupações da escritora sul-africana e de sua argumentação. É que, em seu entender, a globalização só seria efetivamente global se o desequilíbrio do consumo fosse corrigido, favorecendo o desenvolvimento sustentável para todos os habitantes do planeta.
Escreve Gordimer: “O consumo descontrolado nomundo desenvolvido erodiu os recursos renováveis, a exemplo dos combustíveis fósseis, florestas e áreas de pesca, polui o ambiente local e global e se curvou às necessidades de legítimas da vida. Enquanto aqueles de nós que fizeram parte dessas imensas gerações de consumidores precisam consumir menos, para mais de 1 bilhão de pessoas consumir mais é uma questão de vida ou morte e um direito básico- o direito de se libertar da carência”.
As migalhas. Assim expressa a escritora o desequilíbrio básico que quase ninguém mais desconhece: o fato de 20% da população mundial consumir 80% dos recursos produtivos do planeta, enquanto o restante, composto por aqueles que o subcomandante Marcos qualifica de “descartáveis”, sobrevive com as migalhas. O interesse de seu argumento, porém, consiste emvincular o consumo descontrolado à carência, unindo o destino de ricos e pobres em torno do excesso e da falta.
Sua “démarche” lembrou-me o itinerário exemplar do militante socioambientalista Alan Durning, que começou estudando a razão que leva os pobres do Terceiro Mundo a destruírem o ambiente e depois, remontando as conexões, acabou descobrindo que o problema do esgotamento dos recursosdo planeta se encontrava no desperdício das camadas privilegiadas dos países do Norte.
Num livro que interroga as razões e os limites da insaciabilidade consumista dos desenvolvidos, Durning escreve: “No início dos anos 90 os americanos médios consumiam, direta ou indiretamente, 52 quilos de materiais básicos por dia: 18 quilos de petróleo e carvão, 13 quilos de outros minerais, 12 deprodutos agrícolas e 9 de produtos florestais. O consumo diário nesses níveis traduz-se em impactos globais que se equiparam às forças da natureza. Em 1990, as minas que exploram a crosta terrestre para suprir a classe consumista moveram mais terras e rochas do que todos os rios do mundo juntos. A indústria química produziu milhões de toneladas de substâncias sintéticas, mais de 70 mil variedades,muitas das quais se mostraram-se impossíveis de serem isoladas do ambiente natural. Os cientistas que estudam a neve da Antártica, os peixes dos mares profundos e as águas subterrâneas encontram resíduos químicos feitos pelo homem”.
Os especialistas sabem que não se pode resolver a questão na ponta da carência sem tocar na do excesso, porque já está demonstrado que o “americam way of life” nãopode se universalizar, pela simples razão de que não há recursos renováveis para tanto e nem o planeta agüenta. Até no Banco Mundial se discutiu que o modelo é insustentável, e no entanto sua dinâmica prossegue mais atuante do que nunca. Nadine Gordimer lança um apelo às futuras gerações para que enfrentem o crônico problema do desequilíbrio da distribuição: no entanto fica a pergunta: será quefaz sentido acreditar nessa possibilidade e apostar numa globalização “com face humana”?

Material e libidinal. A globalização parece ser a consagração máxima do capitalismo, a sua expansão tanto no plano macro como no micro a níveis até então inimagináveis. Ora desde o início da década de 70, Deleuze e Guatarri já advertiam que o capitalismo vive da carência, que a falta é constitutiva do seu...
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