Culpa em nietzsche e freud

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  • Publicado : 4 de outubro de 2012
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CULPA EM NIETZSCHE E FREUD
Antonio Djalma Braga Junior

RESUMO

Pretende-se com o presente trabalho analisar e comparar as reflexões acerca da culpa elaborada pelo filósofo alemão Nietzsche e pelo pai da psicanálise Freud. Percebe-se que tanto o filósofo quanto o psicanalista concebem o ‘homem’ de uma forma muito peculiar. Eles perceberam que este não é desde sempre um ser tão amigável,bonzinho e dócil, que busca compreender o outro e viver fraternalmente dentro de uma comunidade, mas, ao contrário, possui em si não só uma busca por satisfação e prazer a todo custo, como também uma energia destrutiva, um instinto agressivo, que está interessado em sobreviver e impor-se acima de tudo. Ora, para estes pensadores, o objetivo primário de todo homem é a satisfação integral de suasnecessidades. A partir do momento em que isso não ocorre, surge um fenômeno interessante: os instintos voltam-se para trás, para o interior, para dentro do próprio homem. A repressão dos instintos não os eliminam, mas os redirecionam: se eles não obtiverem sucesso em sua evasão, serão introjetados, internalizados. É deste processo que surge a culpa. Em Nietzsche, a culpa é uma doença oriunda dainteriorização do homem – fato que o torna um animal digno de interesse. Em Freud, ela é vista como um dos maiores empecilhos para a cura de seus doentes. Este tema torna-se central tanto em Nietzsche quanto em Freud: o primeiro relaciona a culpa à moralidade; o segundo a relaciona ao diagnóstico das neuroses. Deste modo, procurar-se-á estabelecer as semelhanças e as dessemelhanças sobre este conceitode culpa tanto no filósofo quanto no psicanalista.

Palavras-chave: culpa, doença, moralidade e neurose.


INTRODUÇÃO

Paul Laurent Assoun (1991, p. 87) afirma em Freud e Nietzshe: semelhanças e dessemelhanças, que confrontar duas temáticas traz uma série de problemas, principalmente no tocante ao método: dois objetos discursivos não se comparam naturalmente, visto que constituem, por si só,seu próprio espaço e não poderiam projetar-se instantaneamente num espaço comum. Por conseguinte, prossegue ele, faz-se necessário a ‘construção’ de um espaço que possibilite a confrontação dos objetos que estão sendo analisados.
Ao investir na análise sobre a conjunção ‘Nietzsche-Freud’, Assoun constrói este espaço através da descrição daquilo que tornou possível e impôs tal conjunção: aestranha contemporaneidade de ambos; as crônicas nietzscheo-freudianas das ‘quartas-feiras psicanalíticas’ ; e as crônicas nietzscheo-freudianas do Congresso de Psicanálise de 1911 em Weimar, capital dos estudos nietzscheanos. E partindo de um “vai-e-vem” dialético, define as problemáticas nietzscheana e freudiana, exibindo ao mesmo tempo a realização e a superação freudiana de determinada virtualidade,presente em Freud, e a resistência à ‘superação’ na qual se manifesta a idiossincrasia nietzscheana (ASSOUN, 1991, p. 88). Deste modo, pretende-se neste artigo responder à pergunta: qual a relação existente no pensamento de Nietzsche e de Freud a respeito da Culpa? Mas, para atingirmos tal objetivo, somos compelidos, antes de colocarmos a questão teórica de fundo, a ‘criar’ um espaço quepossibilite o confronto entre eles e a explicação das aproximações: Não basta verificar analogias e antecipações: convém criar condições para um diálogo, num mesmo terreno, onde as problemáticas são determinadas de modo sutilmente convergente e divergente. (ASSOUN, 1981, p. 89).
Assim, apresentar-se-á aqui, num primeiro momento, a descrição da gênese que possibilitou a conjunção Nietzsche e Freud para,enfim, apresentarmos mais especificamente a relação existente entre ambos no que se refere à culpa.

1 A GÊNESE DA CONJUNÇÃO NIETZSCHE E FREUD
Assoun (1991, p. 9) percebe que a relação de Nietzsche com Freud fora percebida desde há muito tempo e, desde então, analogias foram feitas: Esta conjunção foi percebida e autorizada há muito tempo, a bem dizer desde a origem da psicanálise, desde...
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