Apologia de socrates

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Platão

A D EFESA D E S ÓCRATES

Tradução de
Jaime Bruna
(com adaptações)
Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, 1980.

Exórdio

(17a) Não sei, Atenienses, que influência exerceram meus acusadores em vosso espírito; a
mim próprio, quase me fizeram esquecer quem sou, tal a força de persuasão de sua
eloqüência. Verdade, porém, a bem dizer, não proferiram nenhuma. Uma, sobretudo, meassombrou das muitas calúnias que apresentaram: a recomendação de cautela para não vos
deixardes enganar pelo orador (17b) formidável que sou. Com efeito, não corarem de me
haver eu de desmentir prontamente com os fatos, ao mostrar-me um orador nada formidável,
eis o que me pareceu o maior de seus descaramentos, salvo se essa gente chama formidável a
quem diz a verdade; se é o que entendem, euadmitiria que, em contraste com eles, sou um
orador. Seja como for, repito-o, verdade eles não proferiram nenhuma ou quase nenhuma; de
mim, porém, vós ides ouvir a verdade inteira. Mas não, por Zeus, Atenienses, não ouvireis
discursos como os deles, aprimorados em nomes e verbos, em estilo florido; (17c) serão
expressões espontâneas, nos termos que me ocorrerem, porque deposito confiança najustiça
do que digo; nem espere outra coisa quem quer de vós. Deveras, senhores, não ficaria bem, a
um velho como eu, vir diante de vós fazer seus discursos como um jovenzinho. Faço-vos, no
entanto, um pedido, Atenienses, uma súplica premente; se ouvirdes, na minha defesa, a
mesma linguagem que habitualmente emprego na praça, junto das bancas, onde tantos dentre
vós me tendes escutado, enoutros lugares, não a estranheis nem vos amotineis por isso.
Acontece que venho ao tribunal (17d) pela primeira vez aos setenta anos de idade; sinto-me,
assim, completamente estrangeiro à linguagem do local. Se eu fosse de fato um estrangeiro,
sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação; (18a) peço-vos nesta
ocasião a mesma tolerância, que é de justiça a meu ver, para minhalinguagem – que poderia
ser talvez pior, talvez melhor – e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não.
Nisso reside o mérito de um juiz; o de um orador, em dizer a verdade.
As Duas Classes de Acusadores
Cumpre, Atenienses, me defenda, em primeiro lugar, das primeiras aleivosias contra mim e
dos primeiros acusadores; depois, das recentes e dos recentes. Com efeito, muitosacusadores
(18b) tenho junto de vós, há muitos anos, que nada dizem de verdadeiro. A esses tenho mais

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medo que aos da roda de Anito,1 posto que estes também são temíveis. Mais temíveis, porém,
senhores, são aqueles, que, encarregando-se da educação da maioria de vós desde meninos,
fizeram-vos crer, com acusações inteiramente falsas, que existe certo Sócrates, homem
instruído, que estuda osfenômenos celestes, que investigou tudo o que há debaixo da terra e
que faz prevalecer a razão mais (18c) fraca. Por terem espalhado esse boato, Atenienses, são
esses os meus acusadores temíveis, porque os seus ouvintes acham que os investigadores
daquelas matérias não crêem tampouco nos deuses. Depois, esses acusadores são numerosos
e vêm acusando há muito tempo; mais ainda, falavam convosco naidade em que mais
crédulos podíeis ser, quando alguns de vós éreis crianças ou rapazes, e a acusação era feita a
inteira revelia, sem defensor algum. De tudo, (18d) o que tem menos sentido é não se
poderem dizer nem saber os seus nomes, salvo quando se trata, porventura, de um autor de
comédias. Os que, por inveja, ou malquerença, vos procuravam convencer, mais os que,
convencidos, por suavez convenciam a outros, todos esses são os mais embaraçosos; nem
sequer é possível citar aqui em juízo nenhum deles e refutá-lo; o defensor é inevitavelmente
obrigado a combater como que sombras, a replicar sem tréplica. Em conclusão, concordai
comigo em que meus acusadores são de duas classes: os que acabam de acusar-me e os de
antes, a quem aludi; admiti, também, que destes me deva...
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