Almada cena do odio

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ALMADA NEGREIROS -CENA DO ÓDIO” 1915

POETA SENSACIONISTA E NARCISO DO EGYPTO
Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis, 

Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado, 

e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu! 

Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés! 

O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes, 

Inferno a arder o Meu Cantar! 

Sou Vermêlho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes 
doscossácos!

Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula! 

Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta! 

Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol! 


Ladram-Me a Vida por vivê-La 

e só Me deram Uma! 

Hão-de lati-La por sina! 

Agora quero vivê-La!

Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina 

Hei-de Glória desanuviá-La! 

Hei-de Guindaste içá-La Esfinge 

da Vala pedestre onde Mequerem rir! 

Hei-de trovão-clarim levá-La Luz 

às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas! 

Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia 

nos Funerais de Mim! 

Hei-de Alfange-Mahoma 

cantar Sodoma na Voz de Nero! 

Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre, 

hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido... 

Hei-d' Átila, hei-de Nero, hei-de Eu, 

cantar Atila, cantar Nero, cantar Eu! 


SouNarciso do Meu Ódio! 

— O Meu ódio é Lanterna de Diógenes, 

é cegueira de Diógenes, 

é cegueira da Lanterna! 

(O Meu Ódio tem tronos d' Herodes,

histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!) 

O Meu ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé, só 
Dilúvio Universal! 

e mais Universal ainda: 

Sempre a crescer, sempre a subir... 

até apagar o Sol! 


Sou trono de Abandono,mal-fadado, 

nas iras dos Bárbaros meus Avós. 

Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina 

gemidos vencidos de fracos, 

ruídos famintos de saque, 

ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga! 

Sou ruínas rasas, inocentes 

como as asas de rapinas afogadas. 

Sou relíquias de mártires impotentes 

sequestradas em antros do Vício. 

Sou clausura de Santa professa, 

Mãe exilada do Mal,Hóstia d'Angústia no Claustro, 

freira demente e donzela, 

virtude sozinha da cela 

em penitência do sexo! 

Sou rasto espezinhado d'Invasores 

que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o. 

Sou a Raiva atávica dos Távoras, 

o sangue bastardo de Nero, 

o ódio do último instante 
do Condenado inocente! 

A podenga do Limbo mordeu raivosa 

as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo... 
Ah! que eu sinto, claramente,

que nasci de uma praga de ciúmes! 

Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a 
penar!


Tu, que te dizes Homem! 

Tu, que te alfaiatas em modas 

e fazes cartazes dos fatos que vestes
p'ra que se não vejam as nódoas de baixo! 

Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias, 

as Políticas, as Artes e as Leis, 

e outros quebra-cabeçasde sala 

e outros dramas de grande espectáculo 

Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar. 

Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança 

e o Caminho Marítimo da índia 

e as duas Grandes Américas, 

e que levaste a chatice a estas Terras 

e que trouxeste de lá mais gente p'raqui 

e qu'inda por cima cantaste estes Feitos... 

Tu, qu'inventaste a chatice e o balão, 

e que fartode te chateares no chão 

te foste chatear no ar, 

e qu'inda foste inventar submarinos 

p'ra te chateares também por debaixo d'água, 

Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas 

e que nunca descobriste que eras bruto, 

e que nunca inventaste a maneira de o não seres 

Tu consegues ser cada vez mais besta 

e a este progresso chamas Civilização! 


Vai vivendo abestialidade na Noite dos meus olhos, 

vai inchando a tua ambição-toiro 

'té que a barriga te rebente rã. 

Serei Vitória um dia -Hegemonia de Mim! 

e tu nem derrota, nem morto, nem nada. 

O Século-dos-Séculos virá um dia 

e a burguesia será escravatura 

se for capaz de sair de Cavalgadura! 


Hei-de, entretanto, gastar a garganta 

a insultar-te, ó besta! 

Hei-de morder-te a ponta do...
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