O tempo nos maias.

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  • Publicado : 27 de abril de 2013
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O Tempo
Os acontecimentos narrados têm de ser contextualizados num determinado espaço e num determinado momento. O tempo não só estabelece a duração da acção como marca a sucessão cronológica dos vários acontecimentos – tempo da história – e os contextualiza historicamente – tempo histórico. É importante distinguir ordem temporal de ordem textual, pois se os acontecimentos se registam numadeterminada ordem cronológica – ordem temporal – isso não implica que tenham de ser relatados por essa ordem de sucessão – ordem textual ou tempo do discurso. Quando há um desencontro entre a ordem temporal e a ordem pela qual os acontecimentos são narrados, ou seja, entre o tempo da história e o tempo do discurso, diz-se que há anacronia. Para este desencontro – anacronia – podem contribuir aanalepse, ou seja, um recuo no tempo através da evocação e relato de factos passados; a prolepse, ou seja, um avanço no tempo, pela antecipação de acontecimentos futuros.
Distingamos o TEMPO DA HISTÓRIA (tempo cronológico ou tempo diegético) e o TEMPO DO DISCURSO (tempo da narrativa).
a) Tempo da História é aquele que se desdobra em dias, meses e anos e que é vivido pelas personagens. Nesta obra, oautor dá-nos referências cronológicas concretas da história de três gerações de uma família, embora não tendo todas o mesmo destaque.
É fácil delimitar n’ Os Maias o tempo da história, o qual, como tempo cronológico, é linear e uniforme. A acção d’ Os Maias decorre no século XIX, de 1820 a 1887.
Assim, é fácil identificar-se, embora não com rigor, a altura em que Afonso da Maia, para desgosto deseu pai, Caetano da Maia, miguelista, fora “o mais feroz jacobino de Portugal” e “atirava foguetes de lágrimas à Constituição” (entre 1820 e 1822); é clara a indicação da data de 1875, em que Afonso da Maia e Carlos começaram a habitar o Ramalhete (“A casa que os Maias vieram habitar no Outono de 1875”); a data de “Janeiro de 1877”, em que Carlos e Ega partem para o estrangeiro, também é facilmenteidentificável (“nos primeiros dias do Ano Novo”); finalmente, surge a última data, a de 1887 (no último capítulo), que marca o reencontro de Carlos e Ega, após o termo da ausência daquele no estrangeiro (“numa luminosa e macia manhã de Janeiro de 1887”).
1820 – 1875 – Breves referências ao absolutismo de Caetano da Maia e à juventude liberal de Afonso; história da educação de Pedro da Maia e deseus amores trágicos, em ritmo rápido de novela.
1875 – 1877 – Acção central: história dos amores trágicos de Carlos e Maria Eduarda, alternando com os episódios de crítica social, em ritmo lento de romance.
1877 – 1887 – Ausência de Carlos no estrangeiro e seu regresso.
b) Tempo do Discurso – N’ Os Maias, a narração dos acontecimentos ao nível do discurso não apresenta a mesma ordem em queestes sucederam ao nível da história.
O tempo do discurso (tempo da narrativa) não é linear como sucede com o tempo da história. O discurso d’ Os Maias começa assim: “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das janelas verdes, pela casa do Ramalhete…” Se localizarmos esta data (1875) no tempohistórico, notamos que o discurso começa para lá do meio do tempo histórico, isto é, já no começo da acção central do romance. No entanto, após uma breve história do Ramalhete, da sua reconstrução (dez páginas), o discurso volta-se para os tempos mais antigos dos Maias. É assim que, na pág. 13, começa esta longa ANALEPSE: “Esta existência nem sempre assim correra com a tranquilidade larga e clarade um belo rio de Verão”. Com este recuo no tempo, de cerca de sessenta anos, o autor tem por finalidade recuperar a história dos Maias no espaço de três gerações (absolutismo de Caetano da Maia, liberalismo de Afonso e seus exílios, romantismo e tragédia de Pedro da Maia). É sobre a história de Pedro da Maia, sua educação tradicional e amores trágicos que esta analepse incide mais directamente,...
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