Os maias - tempo

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  • Publicado : 25 de abril de 2011
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Os Maias

“O Tempo”




Introdução

É o tempo que move os acontecimentos, que muda as pessoas. As personagens envelhecem. Carlos engorda, Ega faz-se calvo, torna-se grisalho o cabelo de Taveira e Craft surge “avelhado” e doente do fígado. O tempo modifica ainda a atitude das personagens, Afonso não reage igualmente perante o desgosto do filho e do neto, e é tudo isso que está portrás do desenrolar da acção.
Este romance não apresenta um seguimento temporal linear, mas, pelo contrário, uma estrutura complexa na qual se integram vários "tipos" de tempos: tempo histórico, tempo do discurso e tempo psicológico.
Ao longo deste trabalho vamos dar a conhecer estes três tempos presentes ao longo da obra e tentar mostrar a sua importância a nível psicológico e inseri-los nocontexto histórico do país.

Tempo histórico

Tempo histórico é aquele em que decorre a acção e onde por vezes são feitas referências cronológicas históricas do país.
Nesta obra, a acção decorre no século XIX, entre os anos de 1820 e 1887. É narrada a história de uma família de três gerações, tendo o último membro, Carlos, maior destaque.
Embora não tendo a mesma importância, o autor dá-nosalgumas referências cronológicas concretas, sendo elas:
* 1875 - Ano em que Carlos vai habitar para o Ramalhete, esta data uma data muito importante e é referida na outra três vezes (pp. 5, 10 e 95);
* 1877 - Quando se consuma a tragédia e Carlos abandona Lisboa indo viajar pelo estrangeiro;
* 1887 - Ano em que Carlos regressa a Lisboa dez anos depois de ter partido, reencontra-se com Ega,o seu velho amigo.

Contudo também são referidas outros acontecimentos reais da evolução da sociedade portuguesa dessa época, como por exemplo:
- O Absolutismo (1820-1822), defendido por Caetano da Maia. “Caetano da Maia era um português antigo e fiel que se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apatia de fidalgo beato e doente, tinha só um sentimento vivo - o horror, o ódio ao Jacobino,a quem atribuía todos os males (...) ”Cap. I, p.13.

- Com ideias oponentes, estava o seu filho, Afonso da Maia, que defendia o liberalismo (Revolução Liberal de 1820). “E ter justamente por filho um Jacobino, parecia-lhe uma provação comparável só às de Job!”Cap. I, p.13.

- Os idealismos românticos são também causa de conflito entre Ega, defensor do Naturalismo e Alencar, defensor doUltra-romantismo. “Cohen e Dâmaso, assustados, agarraram-no. Carlos puxara logo para o vão da janela o Alencar que se debatia, com os olhos chamejantes, a gravata solta. Tinha caído uma cadeira; a correcta sala, com os seus divãs de marroquim, os seus ramos de camélias, tomava um ar de taverna, numa bulha de faias, entre a fumaraça de cigarros. Dâmaso, muito pálido, quase sem voz, ia dum a outro:
- Ohmeninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no Hotel Central!...” Cap. IV, pp. 174-175.

Tempo do Discurso

Em qualquer narrativa literária a representação da história exige a elaboração de um discurso. Citando Carlos Reis, ele dizia que com este romance estamos no domínio do tratamento e formulação particular a que se submete a história por acção dum narrador que, contandocom maior ou menos rapidez, com mais ou menos frequentes intrusões da sua subjectividade, condiciona a sua apresentação. O discurso constrói o seu próprio tempo, diverso do da história. É possível afirmar que o discurso constitui uma elaboração particular de uma história de que outro narrador certamente facultaria uma imagem dispersa. Deste modo, o discurso e a sua formulação temporal constituem umaforma de condicionar a história, isto é, de a submeter a determinado tratamento.
Os Maias abarcam uma faixa temporal de cerca de setenta anos, de 1820 a 1887, dos quais apenas catorze meses são objecto de uma atenção diferenciada – Outono de 1875 a Janeiro de 1877. Na obra, o discurso inicia-se no referido Outono de 1875, data em que Carlos, concluída a sua viagem de um ano pela Europa, após...
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