O nascimento da medicina social

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FOUCAULT, Michel. O Nascimento da Medicina Social. In FOUCAULT, Michel Microfísica do Poder. Ed Graal. Rio de Janeiro, 1979

O NASCIMENTO DA MEDICINA SOCIAL
Analisarei, nesta conferência, o nascimento da medicina social. Encontra−se, freqüentemente, em certos críticos da medicina atual, a idéia de que a medicina antiga − grega e egípcia − ou as formas de medicina das sociedades primitivas sãomedicinas sociais, coletivas, não centradas sobre o indivíduo. Minha ignorância em etnologia e egiptologia me impede de opinar sobre o problema. O pouco conhecimento que tenho da história grega me deixa perplexo, pois não vejo como se pode dizer que a medicina grega era coletiva e social.
Mas não são esses os problemas importantes. A questão é de saber se a medicina moderna, científica, quenasceu em fins do século XVIII entre Morgani e Bichat, com o aparecimento da anatomia patológica, é ou não individual. Pode−se dizer − como dizem alguns, em uma perspectiva que pensam ser política, mas que não é por não ser histórica − que a medicina moderna é individual porque penetrou no interior das relações de mercado? Que a medicina moderna, na medida em que é ligada a uma economia capitalista, éuma medicina individual, individualista, conhecendo unicamente a relação de mercado do médico com o doente, ignorando a dimensão global, coletiva, da sociedade?
Procurarei mostrar o contrário: que a medicina moderna é uma medicina social que tem por background uma certa tecnologia do corpo social; que a medicina é uma prática social que somente em um de seus aspectos é individualista e valorizaas relações médico−doente. Sobre este assunto gostaria de indicar uma referência bibliográfica. Trata−se do livro de Victor Bullough "The development of medicine as a profession", de 1965, sobre a história da medicina na Idade Média, em que se vê claramente que a medicina medieval era de tipo individualista e as dimensões coletivas da atividade médica extraordinariamente discretas e limitadas.Minha hipótese é que com o capitalismo não se deu a passagem de uma medicina coletiva para uma medicina privada, mas justamente o contrário; que o capitalismo, desenvolvendo−se em fins do século XVIII e início do século XIX, socializou um primeiro objeto que foi o corpo enquanto força de produção, força de trabalho. O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pelaconsciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade bio−política. A medicina é uma estratégia bio−politica.
Como foi feita esta socialização?
Gostaria de tomar posição com relação a certas hipóteses geralmente aceitas. E verdade que o corpo foi investido política esocialmente como força de trabalho. Mas, o que parece característico da evolução da medicina social, isto é, da própria medicina, no Ocidente, é que não foi a princípio como força de produção que o corpo foi atingido pelo poder médico. Não foi o corpo que trabalha, o corpo do proletário que primeiramente foi assumido pela medicina. Foi somente em último lugar, na 2a metade do século XIX, que se colocou oproblema do corpo, da saúde e do nível da força produtiva dos indivíduos.
Pode−se, grosso modo, reconstituir três etapas na formação da medicina social: medicina de Estado, medicina urbana e, finalmente, medicina da força de trabalho.
I − A medicina de Estado, que se desenvolveu sobretudo na Alemanha, no começo do século XVIII.
Sobre esse problema específico não é válido dizer, como Marx, que aeconomia era inglesa, a política, francesa e a filosofia, alemã. Pois, foi na Alemanha que se formou, no século XVIII, bem antes da França e da Inglaterra, o que se pode chamar de ciência do Estado. A noção de Staatswissenschaft uma noção alemã e sob o nome de ciência do Estado pode−se agrupar duas coisas, que aparecem, nesta época, na Alemanha: por um lado, um conhecimento que tem por objeto...
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