O futuro do trabalho

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  • Publicado : 28 de agosto de 2012
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O FUTURO DO TRABALHO
Gilberto Dupas*

O trabalho remunerado, atividade essencial ao engajamento econômico e social do ser humano na sociedade, está em crise. O capitalismo global contemporâneo trocou lealdade por produtividade imediata e acabou com a época dos relógios de ouro como prêmio por logo tempo de dedicação. Ninguém tem mais emprego de longo prazo garantido na sua atual empresa. Aspróprias capacidades individuais, adquiridas por estudo ou experiência, sucateiam a cada oito a dez anos. O emprego será cada vez mais voltado para tarefas ou projetos de duração definida.

É uma mudança radical em relação ao fim dos anos 1960, quando os indivíduos eram enraizados em sólidas realidades institucionais nas suas corporações que, por sua vez, navegavam em mercados relativamente firmes.Na época dourada do capitalismo de pós-guerra, quando matérias-primas entravam por uma ponta e automóveis saíam prontos por outra, vigorava uma certa “ética social” que domava a luta de classes e que – mais na Europa, mas também nos EUA – garantia benefícios como educação, saúde e pensões por aposentadoria, considerados então direitos universais. A partir dos anos 1980, com a globalização dosmercados, as corporações e seus investidores ficaram mais preocupados com os lucros a curto prazo e os empregos começaram a cruzar rapidamente as fronteiras. E com os avanços da tecnologia de informação, tornou-se mais barato investir em máquinas do que pagar pessoas para trabalhar.

Richard Sennett, da London School of Economics, entrevistou naquela época operários da classe média que seencontravam no epicentro das indústrias de alta tecnologia, dos serviços financeiros e dos meios de comunicação. Grande número deles considerava que suas vidas estavam agora em risco permanente. A tendência era aceitar essas mudanças estruturais com resignação, como se tivessem caráter inevitável, no que acertaram em cheio. O novo capital é impaciente, avalia resultados mais pelos preços das ações quepelos dividendos. Para esses investidores o que interessa é a capacidade das empresas de serem flexíveis como um MP3, com a seqüência de produção podendo ser alterada à vontade e terceirizando tudo sempre que possível.

Sennett vê a tendência para o futuro dos empregos como contratos de três ou seis meses, freqüentemente renovados. A conseqüência já se faz sentir. O trabalho temporário é o setor demais rápido crescimento da força de trabalho nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha; e já representa 25% da mão-de-obra empregada nos EUA. Numa organização flexível como os investidores gostam, o poder ocupa uma posição quase virtual; estabelece as tarefas, avalia os resultados e promove a expansão ou o encolhimento da empresa. O objetivo é obter os melhores resultados com a maior rapidez possível.Para as várias equipes encarregadas das tarefas estabelece-se prêmios apenas para a de melhor desempenho. Sennett lembra que é um jogo de tudo ou nada que mantém alto nível de ansiedade e baixa lealdade institucional. A desigualdade no interior das empresas aumenta; as remunerações são muito altas para os executivos bem sucedidos e muito baixas para os trabalhadores. O melhor exemplo é oWal-Mart, maior empresa em faturamento do mundo, que utiliza alta tecnologia e paga próximo da linha de pobreza ao grosso de seus funcionários. Compare-se com os empregos estáveis e com boa remuneração que a grande indústria norte-americana do pós-guerra (Ford, GM, GE e outras) gerava, o que possibilitou a estruturação da sólida classe média do país.

Hoje tudo mudou. O dia de trabalho prolonga-se pelosperíodos de descanso, a pressão torna-se mais depressiva que estimulante.

Em suas pesquisas de campo, Sennett constatou que nessa situação, onde a lealdade com a instituição não pode ser construída, gera-se maior propensão para o alcoolismo, o divórcio e os problemas de saúde. No nível mais baixo dos empregos flexíveis, impera os chamados Mc-empregos – fritar hambúrgueres ou atender em...
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