O futuro da sociologia

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O FUTURO

DA

S OCIOLOGIA R URAL

E SUA

CONTRIBUIÇÃO

PARA A

QUALIDADE

DE

V IDA RURAL

O futuro da Sociologia Rural
e sua contribuição para a qualidade de vida rural *
JOSÉ DE SOUZA MARTINS

tem um pesado débito para com as populações rurais de todo o mundo. As gerações vitimadas por uma sociologia a serviço da difusão de inovações, cuja prioridade era a própriainovação, ainda estão aí, legando aos filhos que chegam à idade adulta os efeitos de uma demolição cultural que nem sempre foi substituída por valores sociais includentes, emancipadores e libertadores: ou legando aos filhos o débito social do desenraizamento e da migração para as cidades ou para as vilas pobres próximas das grandes fazendas de onde saíram, deslocados que foram para cenários de poucasoportunidades e de nenhuma qualidade de vida.

A

SOCIOLOGIA RURAL

Porque essa é, certamente, uma preocupação de todos nós, especialmente de minha geração, gostaria de colocar no centro desta reflexão o tema do desencontro entre a sociologia rural e as populações rurais a cujo estudo se dedica. E gostaria de fazê-lo assinalando que, para a sociologia rural, as últimas décadas foram décadas de seupróprio desencantamento. Ao se tornar instrumento do desencantamento do mundo – de que nos fala Max Weber – a sociologia rural desencantou-se a si mesma, ao descobrir lentamente que as populações rurais têm seus próprios códigos de conhecimento e sua própria concepção de destino, que são tão legítimos quanto os códigos e as concepções dos setores da sociedade dos quais os sociólogos se sentemmais próximos e mais acolhidos. Nenhum campo da sociologia ficou mais exposto a esse desencantamento do que a sociologia rural. Porque nenhum ficou tão obstinadamente preso à suposição de que as populações rurais são populações retardatárias do desenvolvimento econômico e da História, supostas ilhas de primitivismo no suposto paraíso da modernidade. Diferentes concepções de sociologia ruraldefrontaram-se com a mesma dificuldade.

* Exposição feita pelo autor em plenário, na sessão de encerramento do X Congresso Mundial de Sociologia Rural, realizado no Rio de Janeiro em 4 de agosto de 2000.

ESTUDOS AVANÇADOS 15 (43), 2001

31

JOSÉ

DE

S O U Z A M A RT I N S

Por muito tempo e para muitos, a sociologia rural foi mais uma sociologia da ocupação agrícola e da produtividade doque uma sociologia propriamente rural. Mais uma sociologia das perturbações do agrícola pelo rural do que uma sociologia de um modo de ser e de um modo de viver mediados por uma maneira singular de inserção nos processos sociais e no processo histórico. Não raro, o mundo rural tornou-se objeto de estudo e de interesse dos sociólogos rurais pelo “lado negativo”, por aquilo que parecia incongruentecom as fantasias da modernidade. Não por aquilo que as populações rurais eram e sim pelo que os sociólogos gostariam que elas fossem. Quando assumiu o mundo rural como objeto, a sociologia rural o fez mais como “adversária” do que como ciência isenta e neutra. Mais como ciência da modernização do que como ciência aberta à compreensão dos efeitos destrutivos e perversos que não raro a modernizaçãoacarreta. A modernização é um valor dos sociólogos rurais e não necessariamente das populações rurais, porque, de fato, para estas não raro ela tem representado desemprego, desenraizamento, desagregação da família e da comunidade, dor e sofrimento. O deslocamento de grandes massas rurais para a cidade revelou-nos uma dimensão desdenhada do mundo rural: um modo de ser, uma visão de mundo e umaperspectiva crítica poderosa em relação ao desenvolvimento capitalista, à modernização anômala e à desumanização das pessoas apanhadas de modo anômico, incompleto e marginal pelas grandes transformações econômicas e políticas que, não raro, tiveram os sociólogos como acólitos. O deslocamento nos mostrou, e já há estudos sobre o fenômeno, que o rural pode subsistir culturalmente por longo tempo...
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