O eu profundo

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FERNANDO PESSOA

O Eu profundo e os outros Eus

20ª EDIÇÃO

A
EDITORA NOVA FRONTEIRA

POEMAS DRAMÁTICOS

NA

FLORESTA O

DO

ALHEAMENTO

MARINHEIRO

NOTA
A LITERATURA DRAMÁTICA é uma

PRELIMINAR* ber a aparência de vida, isto é, que ele pode ser simulado num palco por pessoas a que se chama atores. As qualidades possíveis do drama resultam, portanto, de três origens. Háas que ele tem em comum com todas as formas literárias, visto que ele é literatura; há as que ele tem, mais particularmente, em comum com todas as narrativas literárias; e há as que lhe são próprias como forma maximamente sintética da narrativa literária. Há três espécies de drama: o tipo sintético, que busca incluir em

subespécie de literatura narrativa, e esta uma espécie do gênero literatura.A literatura é a expressão verbal de um temperamento; a literatura narrativa a forma objetiva dessa expressão verbal; a literatura dramática a forma maximamente objetiva — ou seja, a forma sintética — dessa expressão objetiva. Um drama não é mais que um romance na sua forma máxima de síntese possível. Ê por atingir esta objetividade máxima que ele pode rece-

* Apontamento solto; s. d.; inPoemas Dramáticos, I, ed. Ática.

si, equilibrando-as, as três ordens de qualidades que ao drama são possíveis; o tipo analítico, que busca apresentar só as qualidades particulares e distintivas do drama; e o tipo misto que busca reunir, conforme possa ser, as qualidades desses dois tipos.

O tipo sintético do drama atinge a sua plenitude no drama em verso. Por ser em verso atinge o máximo daexpressão verbal de um temperamento, que em verso se acentua muito mais que em prosa. Por ser drama reduz essa [expressão] verbal à objetividade.

NA FLORESTA DO ALHEAMENTO
e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda. . . Sinto-me febril de longe. Peso-me não sei por quê. .. Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre um sono e a vigília,num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-me, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústiainerte manuseia-me a alma por dentro, c incerta, altera-me como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta. . . Para que há de um dia raiar?. . . Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entrevelar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é esse. .. Surge mas não apaga esta, esta alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam. Que nítida de outra e de ela essa trêmula paisagem transparente! . . . E quem é esta mulher que comigo veste de observadaessa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar? . . . Eu nem sei querê-lo saber. . . A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem. . . e essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores, e aquelas flores eaquelas vias em desvios c aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo
SEI QUE DESPERTEI

ao meu olhar, que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver. . . De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto, um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou atual destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de...
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