O estudo das sociedades complexas

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O conceito de Cultura e o estudo das sociedades
complexas:
uma perspectiva antropológica
Gilberto Velho
Eduardo Viveiros de Castro
A constituição da antropologia,
enquanto campo de saber, está
profundamente associada à noção de
cultura. Esta disciplina, desde o seu
início em fins do século XIX, se apropria
do termo “cultura” e o erige em conceito
totêmico, símbolo distintivo.Difundindose pelo campo intelectual moderno, a
noção
de
cultura
carrega
definitivamente a marca antropológica.
“Cultura ou civilização... é este
todo complexo que inclui conhecimento,
crença, arte, leis, moral, costumes, e
quaisquer outras capacidades e hábitos
adquiridos pelo homem enquanto
membro da sociedade” (Tylor 1871:1). A
famosa definição de Edward Tylor, por
inclusiva e confusa quefosse, abriu
caminho a toda uma nova problemática.
Depois dela, muita coisa se passou na
Antropologia, em volta deste conceito:
escolas inteiras organizaram-se a partir
de ênfases, alternativas, definições de
“Cultura”. O termo entrou em pares
conceituais variados: cultura/sociedade,
cultura/personalidade,
sem
esquecermos
o
tradicional
cultura/civilização, presente na citação
de Tylor.Kroeber e Kluckhon, em 1952,
transcreveram,
classificaram
e
comentaram 164 definições diferentes
de “cultura”: descritivas, normativas,
psicológicas, estruturais, históricas, etc.
(Kroeber e Kluckhon 1952). Esta
espantosa proliferação indica o papel
estratégico do conceito, que, neste
sentido, vai integrar o acervo cultural do
Ocidente moderno: ele já foi comparado
à segunda lei determodinâmica, ao
principio da seleção natural, à
motivação
inconsciente
do
comportamento (Geertz 1973) 
tópicos-chave da mitologia “culta” do
século XX.
Com Tylor, a história do termo
“cultura” passa a uma nova fase. Até
então, seu foco era predominantemente
uma reflexão sobre as descontinuidades
sociais e nacionais dentro da Europa. A

1

Kultur foi um tema caro ao romantismoalemão, inicialmente instrumento da
burguesia
contra
a
aristocracia
influenciada
pela
corte
francesa
(identificada a Zivilisierheit, a civilização
como polidez superficial, cortesã); mais
tarde, veio a definir o espírito alemão,
símbolo da unificação nacional (Elias
1969). A idéia de “civilização”,
dominante da França e Inglaterra,
compreendia desde os modos das
classes superiores atéconquistas
tecnológicas
do
Ocidente.
Na
Alemanha, “civilização” veio indicar as
realizações materiais de um povo;
“cultura”, por outro lado, referia-se aos
aspectos
espirituais
de
uma
comunidade. Enquanto a primeira noção
trazia em si  em seu uso francês  a
idéia de progresso, a outra voltava-se
para a tradição; aquela inseria-se no
expansionismo colonial (a missãocivilizatória do homem branco), esta
marcava singularidade de cada povo. E,
com efeito, a noção de Civilização
permanece tingida pelo sentimento de
especificidade do Ocidente como um
todo, de autoconsciência satisfeita; a
“cultura”, por sua vez, foi assumida pela
Antropologia, discurso ocidental sobre a
alteridade.
Note-se, contudo, na definição
de Tylor, a equação “cultura-civilização”;
aqui, estadistinção deixa de fazer
sentido; agora trata-se de definir
conceitos de valor universal. Mas, se o
conceito de Cultura veio a predominar
sobre
“civilização”,
é
porque
originalmente ele se adequava melhor à
proposta da Antropologia. Enquanto a
idéia de civilização pressupõe um
aspecto
territorial
dado,
uma
continuidade espacial (não por acaso
surge em sociedades há muitounificadas), a idéia de cultura sugere
uma ligação espiritual entre homens,
mesmo
separados por fronteiras
político-geográficas. E essa ligação é
inescapável;
consciente
ou

inconscientemente, põe o ser humano
individual em contato com um universo
social de valores. Assim, o homem
acede a sua essência “enquanto
membro de sociedade”  como diz
Tylor.
Estes significados marcaram o
uso de...
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