A vida sexual dos casados na sociedade antiga

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  • Publicado : 9 de dezembro de 2012
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A vida sexual dos casados na sociedade antiga:
Da doutrina da Igreja à realidade dos comportamentos

Jean-Louis Flandrin (*)
Poucas fontes falaram da sexualidade conjugal com tanta minúcia quanto os
tratados de teologia moral, as coletâneas de casos de consciência, os manuais de confissão, etc. Tomarei então como ponto de partida esses documentos eclesiásticos, insistindo especialmente nasprescrições neles contidas que mais nos parecem estranhas hoje em dia. Depois procurarei saber em que medida esta literatura nos esclarece sobre a vida dos casais de outrora.
Há, no centro da moral cristã, uma desconfiança muito aguda em relação aos prazeres carnais, porque eles mantêm o espírito prisioneiro do corpo, impedindo-o de se elevar na direção de Deus. É necessário comer para viver, masdeve-se evitar se entregar aos prazeres da gula. Da mesma maneira, somos obrigados a nos unir a outro sexo para gerar filhos, mas não devemos nos prender aos prazeres sexuais. A sexualidade nos foi dada somente para nos reproduzirmos, Utilizá-la para outros fins, como por exemplo para o prazer, é malbaratá-la.
Em nossa sociedade, como nas outras, observam os moralistas cristãos, a instituiçãofamiliar é a que melhor se adapta à educação das crianças, e aliás só se podem conceber filhos legítimos – isto é, aptos a nos sucederem – dentro do casamento legítimo.
Toda atividade sexual fora do casamento tem, portanto, necessariamente uma outra finalidade que não a procriação e constitui um pecado. É por isso que nenhuma é permitida. Conhecemos melhor essa proibição do que suas razõesteológicas, para não falar das razões históricas, que mereceriam um estudo mais aprofundado.
Por outro lado – e isso já é mais estranho para nós – a união sexual só era legítima, dentro do próprio casamento, se fosse realizada para uma boa finalidade, isto é, para gerar filhos, ou para dar ao cônjuge o que lhe havíamos prometido no contrato de casamento. A essas duas boas razões para se unir ao marido ou àmulher, os teólogos, a partir do século XIII, acrescentaram uma terceira, menos louvável na verdade: a intenção de lutar contra um desejo culposo. São Paulo, com efeito, escreve aos coríntios:
“É bom ao homem não tocar em mulher. Todavia, para evitar a fornicação, tenha cada homem a sua mulher e cada mulher o seu marido. O marido cumpra o dever conjugal para com a esposa; e a mulher faça o mesmocom relação ao marido” (I Cor. 7, 1-3).
Assim sendo, o casamento era um remédio que Deus deu ao homem para que este se preservasse da impudência. Em outras palavras – são os teólogos que o dizem, a partir do século XIII -, quando um dos esposos se sente tentado a cometer adultério, ou a cair em polução voluntária, pode, se não encontrar meio melhor, utilizar o remédio do casamento para nãosucumbir a essa tentação.
A partir do século XV, alguns teólogos acharam que não se podia cometer pecado algum unindo-se à sua mulher ou ao seu marido com essa intenção. Antes, todos viam aí pecado venial. Deviam-se, ainda, vigiar seus fantasmas psicológicos, sob pena de cair em pecado mortal, pois imaginar que está se unindo a outra pessoa que não o cônjuge é cometer adultério.
Finalmente, a maioriados teólogos julgava que os esposos que se uniam ao cônjuge pelo prazer também cometiam um pecado mortal. Há, por certo, um momento em que esse prazer brutal que é o prazer sexual invade todo o campo da consciência. Pelo menos, é o que diziam os teólogos. E muitos pensavam – como o papa Gregório Magno no século VI – que é quase impossível sair puro do abraço conjugal. Mas o pecado mortal eraunir-se deliberadamente ao cônjuge para sentir tal prazer. Quase todos os teólogos
medievais o sublinharam, seguindo nesse ponto São Jerônimo ao invés de Santo Agostinho.
É preciso esperar Thomas Sanchez, na virada dos séculos XVI e XVII, para se ouvir um outro discurso e descobrir uma outra problemática. Os esposos, diz ele, que, sem intenção particular, não procuram “senão unir-se entre...
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