A subjetividade roubada

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  • Publicado : 14 de outubro de 2012
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A SUBJETIVIDADE ROUBADA

Maria Santana de Sousa Andrade Silva*

1 INTRODUÇÃO

Ao longo de diferentes momentos históricos, o corpo, as sensações e os sentimentos têm se configurado como instâncias fundamentais para a compreensão da dimensão subjetiva dos indivíduos. Na contemporaneidade, o corpo cada vez mais ocupa um lugar relevante no cotidiano das relações sociais, ocupando um lugar dedestaque na indústria cultural, seja da moda, cinematográfica, publicitária ou literária. Toda sociedade, em qualquer época, constrói seus padrões e modelos em volta da questão da beleza e, apesar de seu caráter subjetivo, muitas pessoas buscam encaixar-se na forma humana da atualidade. Para a minha avó, bonita era a mulher gorda, com formas arredondadas. Quando ela nos elogiava não sabíamos seficávamos ou não felizes, pois sua visão de belo associava ao saudável e revelava-se nos quilos a mais que a mulher apresentava. Configura-se atualmente, um cenário bastante contraditório, Por um lado, nos deparamos com a supervalorização da magreza como padrão de beleza. Um ideal difícil de ser alcançado, mas que passou a ser valorizado e perseguido por um número cada vez maior de pessoas, sobretudopor sua associação com atratividade sexual, sucesso, competência e felicidade, e por outro convivemos com uma grande variedade de alimentos, especialmente dos industrializados, de altíssimo valor calórico. No intuito de seguir esse padrão de beleza tido como ideal, propagado pela mídia, inúmeros são os casos de adoecimento do indivíduo, como o de compulsão, obesidade,
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Especializanda emPsicologia e Práticas de Saúde/UNIFOR, Psicóloga/FACID, Bacharel em Filosofia/FACIBA, Tanatóloga/CTAN, Especialista em Docência do Ensino Superior/FAP. E-mail: msantana_sas@hotmail.com.

anorexia, culpa, consumo desesperado de medicamentos, entre muitos outros, que podem ser relacionados com estes ideais de corpos. Com isso, podemos dizer que os valores e significados sócio-culturais que emergemdeste cenário bastante paradoxal contribuem para o surgimento de novos modos de subjetivação, favorecendo um mal estar na sociedade, sobretudo com sintomas psíquicos adversos que marcam o corpo. O presente trabalho busca explicitar através de um relato clínico como o não dito, ou falência da linguagem apresentada por Birman (2005) descarrega os excessos sobre o corpo desencadeando processospatológicos que afetam o físico e o psíquico levando o aprisionamento do eu, permitindo o outro o roubo da subjetividade. Elucida a relevância do psicólogo dentro do contexto de uma equipe multiprofissional, na medida em que objetiva ações integradas e interdisciplinares, observando a importância de nos determos em certos aspectos que traduzem algumas das significações da Psicologia hospitalar, relacionandocom o contexto de risco em que está constantemente a nossa singularidade e como a postura do psicólogo diante do ser humano e sua realidade social pode minimizar o sofrimento, proporcionando um lugar de escuta e acolhimento.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

Contemporaneidade significa tempo atual. De acordo com Bauman (2004), o tempo em que vivemos é caracterizado pela cultura do excesso, do sempremais e mais, na qual tudo se torna intenso e muito urgente. As transformações pelas quais a sociedade contemporânea tem

passado, conseqüentemente atinge as formas de subjetivação existentes. Em relação ao corpo há uma profusão de discursos, sobretudo midiáticos, que desejam veicular um modelo consideravelmente restrito do que seja um corpo ideal ou belo, estabelecendo, com isso, um padrão decomportamento no que diz respeito ao corpo. Na busca desse padrão de beleza, observamos inúmeros casos de adoecimento, tais como: compulsão alimentar, obesidade, anorexia, bulimia, culpa e até depressão. Dentro desse contexto, somos constantemente incentivados, principalmente através da mídia, atendendo a fortes interesses mercadológicos das indústrias da beleza/saúde e da alimentação, ao culto ao...
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