A hora da estrela

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  • Publicado : 31 de maio de 2012
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A Hora da Estrela
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Tudo começa com uma máscara. Clarice teme se revelar inteira nesta obra, ela se esconde sob um narrador. A história de uma das personagens mais complexas e ricas desta autora é narrada por um ‘homem’, o escritor Rodrigo. Mas, ironicamente, nunca a alma feminina foi tão revelada quanto nesta suposta maestria masculina. Porém, o leitor não se deve deixar enganar. Apersonagem principal não é exatamente a nordestina Macabéa, mas sim a própria literatura, o ato de narrar, o nascimento de uma obra, tecida com palavras extraídas, muitas vezes, de pedras, ou melhor dizendo, de fatos tão duros quanto elas.

O narrador cria sua personagem favorita como uma metáfora da simplicidade aparente, que neste momento ele busca em sua escrita, tentando fugir dos preciosismos e deuma erudição artificial e estéril. Enquanto a nordestina quase nada questiona, parece aceitar resignadamente seu destino, sem nem pensar sobre a vida, menos ainda em seu sentido, Rodrigo busca a si mesmo, sem cessar, através da literatura. Em muitos momentos ele afirma escrever para não morrer, à procura de uma resposta.
Esta metanarrativa prossegue até a exaustão, e retorna aqui e ali ao longo dahistória, interrompendo e às vezes até mesmo suspendendo o fluxo narrativo. Em “A Hora da Estrela”, o monólogo interior clariceano transporta-se para a alma do narrador, que aqui não coincide explicitamente com a protagonista, e muitas vezes se transforma em diálogo claro com quem o lê. Cada aspecto da história é discutido com os futuros leitores da obra, desde sua verossimilhança até otempo-espaço em que a narrativa se ambientará.
A identidade entre o narrador e Macabéa se resume apenas ao seu passado de nordestino, que, aliás, coincide com o da escritora, criada em Maceió e Recife? Ou há mais entre eles do que ousamos presumir? Não são poucos os momentos em que ele se declara apaixonado por Macabéa, e se torna seu mais ardente defensor. Rodrigo adivinha na personagem, sob o corpofrágil e murcho, à primeira vista sem sumo e sem essência, tamanha vitalidade e sensualidade, tão difíceis de imaginar, que o leitor logo desconfia de uma conexão maior entre ambos. A própria admiração dela pela atriz Marilyn Monroe, ícone maior da volúpia, traduz os anseios e desejos que palpitam em sua alma desprovida de maiores ambições.
Há na protagonista, segundo seu criador, um excesso deexistir, que se farta nas coisas mais simples, nos pequenos e ocultos detalhes, que, como ela mesma, passam sempre despercebidos. A alagoana, embora acreditasse ser feliz, por mais miserável que fosse sua vida, sentia às vezes se doer, uma dor aguda em seu íntimo, que ela acreditava sanar apenas engolindo pílulas sem água. Esta criatura quase despersonalizada, em muitos momentos surpreendia a si mesma,ora desejando transpor as barreiras do conhecimento, tentando desvendar o significado de palavras para ela enigmáticas, captadas no programa ‘Você Sabia?’, da Rádio Relógio; ora se permitindo um instante de êxtase, ao tentar abraçar uma árvore que ela jamais poderia enlaçar completamente.
Macabéa, órfã de pai e mãe, sem lembrança alguma de seu nascimento ou do que seja uma família, criada por umatia devota que sentia prazer ao lhe provocar dor e sofrimento, comportava-se muitas vezes como um animalzinho instintivo e manso, inocente ao extremo, a ponto de parecer nada sentir, tornando-se assim carente de expressão facial, o que causa estranheza nos raros que percebem sua existência, como a colega de trabalho Glória, que em dado momento lhe pergunta se ela “não tem cara”. Ou Olímpico, seunamorado, também nordestino, porém de outra estirpe, dos fortes nascidos no sertão, que se refere a ela como “um cabelo na sopa”, o qual “não dá vontade de comer”.
Olímpico é o contraponto de Macabéa, produto também das áridas paisagens do Nordeste, um paraibano ambíguo, por um lado agindo como um valentão, que mata e fere primeiro, para poder sobreviver e escapar às armadilhas do sofrimento;...
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