A hegemonia americana em estudos organizacionais

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A hegemonia americana em estudos
organizacionais*
Sylvia Constant Vergara**

“Brasil, mostra a tua cara!”
Cazuza, compositor e cantor

S U M Á R I O : 1. Introdução; 2. O mapeamento da identidade nacional; 3. A
produção brasileira em estudos organizacionais; 4. A produção científica
brasileira de uma década (1989-98); 5. Desvendando os motivos para o uso
das referências; 6. Sinalizandopara razões históricas; 7. Para concluir.
P A L A V R A S - C H A V E : referências; independência intelectual; identidade; sedução.
Este artigo visa demonstrar até que ponto a produção científica em estudos
organizacionais no Brasil tem revelado independência intelectual tal que
contribua para o autoconhecimento do país, o reconhecimento de sua identidade e, a partir daí, para seuautodesenvolvimento. Objetiva também apresentar motivos para a presença ou a ausência de tal independência. O artigo
conclui que a produção científica demonstra a hegemonia dos EUA como
referência para os autores brasileiros, mas percebe já uma certa busca de
autonomia intelectual.
Uhegemony in organizational studies
This paper intends to show to what extent has the Brazilian scientific production onorganizational studies shown independence, thus contributing to
the country’s self-knowledge, to the recognition of its identity, and, from
that, to its self-development. It also presents de reasons for the presence or
absence of independence. The paper concludes that the scientific production
reveals the hegemony of the United States as a reference for Brazilian
authors, but that there isalready a certain search for intellectual autonomy.

* Artigo recebido em dezembro de 2000 e aceito em fevereiro de 2001.
** Professora da EBAP/FGV e coordenadora de cursos de educação continuada da FGV Management.

RA P

R i o d e Ja ne ir o 3 5( 2 ) : 6 3- 77 , M ar. / A b r . 20 0 1

1. Introdução
Gilberto Freyre (1946) apontava a vocação do brasileiro para imitar. Sérgio
Buarque deHolanda (1976) sinalizava que, por importar de outros países
suas maneiras de viver, o brasileiro acabava por ser um desterrado em sua
própria terra. Sílvio Romero (1943), por sua vez, afirmava que o brasileiro
imitava o estrangeiro na vida intelectual. Guerreiro Ramos (1983) dizia que o
Brasil adotou os modelos institucionais dominantes no mundo e justificava tal
decisão como necessária para opaís apropriar-se de requisitos que lhe permitissem evoluir.
O posicionamento destes e de outros pensadores leva a crer que o brasileiro vincula-se fortemente a determinadas correntes de pensamento, submete-se a ideologias ou deixa-se seduzir. Como resultado, perde clareza quanto
aos interesses nacionais ou produz equívocos na formatação de sua realidade. Esta circunstância pode levá-lo arespostas inadequadas aos seus problemas ou a deixar de explorar as potencialidades que possui. Nesse contexto,
assume relevância a produção científica em estudos organizacionais, supostamente legitimadora das práticas organizacionais. Até que ponto a produção
científica em estudos organizacionais no Brasil tem revelado independência
intelectual tal que contribua para o autoconhecimento do país, oreconhecimento de sua identidade e, a partir daí, para seu autodesenvolvimento? Que
motivos podem ser identificados para a presença ou a ausência de tal independência? Responder a essas questões é o objetivo deste artigo.
O texto está estruturado em seis seções, além desta introdução. Na seção 2 argumenta-se sobre a necessidade de mapear a identidade nacional. A
seção 4 resgata um tanto daprodução brasileira dedicada à análise dessa produção. A quarta seção apresenta os resultados de pesquisa realizada na produção em estudos organizacionais referente à década 1989-98. A quinta explicita
os motivos para os resultados apresentados pela pesquisa, segundo autores brasileiros. A seção 6 apresenta razões históricas para a hegemonia americana na
produção científica brasileira. A última...
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