A face oculta da caridade

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MÍDIA E COMUNICAÇÃO

A face oculta da caridade: linhas de força e de fratura no discurso midiático do bem*
RESUMO

Discutindo mais profundamente o conceito de cidadania e sua apropriação pela mídia como algo a ser ‘oferecido’ às minorias, este artigo analisa as condições materiais e simbólicas que estão por trás de uma comunicação baseada na discursificação do bem. Buscamos mostrar como linhas deforça se perpetuam à medida que a autonomia das minorias vai sendo progressivamente minada por um discurso de docilização, que congela a alteridade na posição permanente de devedor. Neste sentido, procuramos discutir o sentido da dominação e os mecanismos tácitos de que faz uso para manter e validar o discurso hegemônico.
PALAVRAS-CHAVE

A outra face do "dom" e a humilhação social por trás dadiscursificação do bem

empoderamento discursivo humilhação social cidadania
ABSTRACT

Discussing more thoroughly the concept of citizenship and its appropriation by mass media like something to be “offered” to the minorities, the present article analyses the material and symbolical conditions which are behind a communication system based upon the discursification of good. We try to show how lines offorce perpetuate themselves in the same measure as the minorities´ autonomy is progressively being undermined by a docilization discourse, which congeals alterity into the permanent debtor position. In this sense, we seek to discuss the meaning of domination and the tacit mechanisms it uses in order to maintain and validate the hegemonic discourse.
KEY WORDS

discursive empowerment socialhumiliation citizenship

Luciane Lucas

Professora do Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM/SP/BR llucas@espm.br

Tânia Hoff

Professora do Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM/SP/BR thoff@espm.br

O termo cidadania tem sido permanentemente empregado na mídia – e, na seqüência, banalizado em formas múltiplas de comunicação – como se encerrasse valores ou condiçõestransferíveis a outros indivíduos. Ou seja, o uso do termo parece sugerir sempre algo que pudesse ser conferido a outrem ou que definisse um modelo de comportamento, uma postura diante do mundo. Na prática, entretanto, esta idéia - legitimada no senso comum e em algumas correntes do conhecimento - não se sustenta. De modo mais profundo, o pensamento de Hannah Arendt, que adotamos no presente artigo,apresenta a cidadania como diretamente relacionada às condições de ação e palavra de que um sujeito pode ser portador. Na impossibilidade de ser protagonista de sua história ou da história de seu grupo, torna-se inviável a condição de cidadão. Assim, um indivíduo não é cidadão apenas porque contribuiu solidariamente para reduzir o sofrimento de outrem, como usualmente a mídia reforça a todo momento,mas porque tem condições asseguradas ele mesmo de expressar-se, de interferir no modelo de constituição de sentido em que ele está socialmente inserido, de agir sobre suas condições materiais e simbólicas de existência. Ou seja, “cidadão é quem, em companhia de outros cidadãos, toma iniciativas e anuncia iniciativas por meio da voz, por meio de palavras. O cidadão é quem inicia, em companhia deoutros iniciadores com quem conversa” (Gonçalves Filho, 2007, p.199). Esta aptidão própria do cidadão para ser iniciador revela a imprescindibilidade de poder escolher suas próprias soluções e intervir no próprio destino, a despeito das condições externas desfavoráveis e do ambiente de dominação em que possa estar inserido. Isso mostra que a cidadania não é uma condição que possa ser repassada, comoum presente, ou possa ser conferida como uma espécie de aprendizado. Isso não significa, entretanto, que ela não possa ser impedida, à medida que relações de dominação tendem a suprimir os ingredientes básicos para sua constituição: estamos falando da palavra e também da ação que o empoderamento discursivo confere. Assim, ser iniciador pressupõe a capacidade de poder intervir nos automatismos...
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