A contracultura

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  • Publicado : 3 de abril de 2013
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A Contracultura no BrasilAnalisar a contracultura no Brasil talvez seja um intento pretensioso, mas como a modernidade urbana introduzida pela contracultura chegou para ficar nas nossas grandes cidades, é importante interpretar o fenômeno, desconstruindo os clichês veiculados habitualmente nos meios de comunicação. Para falar em contracultura no Brasil e, querendo ir além do mero registro de ummodismo, precisamos recorrer a textos de Paulo Coelho e Raul Seixas. Como boa parte do meio intelectual, artístico e jornalístico, Paulo Coelho e Raul Seixas, dois artistas intelectualizados, adotaram gestos e gírias contraculturais, lançaram um manifesto, e começaram a fazer sucesso com músicas e alguns textos em que narravam experiências, atitudes e indagações que marcaram o período,especialmente a transformação de valores que o fim da década de 60 assistiu. Em Abril de 1972, foi publicado o segundo número da revista 2001, que procurava também retratar o pensamento e o comportamento da chamada “contracultura”. O texto cita Howl (Uivo) de Allen Ginsberg: Digo que estou o tempo todo na corda bamba, e que já vi os melhores cérebros de minha geração destruídos pela loucura ou peloesquecimento. Eu não pertenço à geração da espada nem à geração da flor. Não dancei rock, não pedi esmola viajando, não briguei em passeatas. Tudo foi acontecendo um pouco à margem, e antes que acabasse eu já tinha consumido. Por isso não pegava nem na pedra nem na guitarra. Como eu sofri, meu Deus, por causa disto. Mas o fato é que tudo acontecia dentro de mim. Só que em algumas horas eu devorava aquelesanos inteiros da vida de outras pessoas. O texto assume a postura de “anomia” social. O narrador está contra as regras vigentes na sociedade, mas não sabemos se tem algo a propor: Não vim aqui para mudar a lei, nem para estar de acordo com ela! Eu vim para contar o fim da história, escrever os evangelhos que estão faltando Eu sou o grande mito da nossa Era. Eu sou o Jovem. No entanto, eles são doisartistas que importaram a contracultura diretamente da Europa e EUA, recomeçando do zero esta discussão e ignorando as polêmicas instauradas pelos tropicalistas dos anos 60 em diante. Tampouco põe em discussão o cinema “udigrudi” ou a poesia marginal dos anos 70. O ato de lançarem um manifesto os remete ao modernismo de 22 e ao tropicalismo, ainda que o diálogo não se estabeleça.

Nos textosressoa a linguagem bíblica, convivendo com a negação da modernização consumista proposta pelo regime militar, e o resgate do mau gosto, dos padrões da subarte: Eu falo com você numa linguagem bem simples, dialética do conhecimento misturada com cafonice de escola de samba no Leblon. (...) Eu tenho vivido neste tempo. Entre pessoas que me dizem que se eu comprar aquela geladeira vou ter felicidade oano inteiro. (...) Eu tenho vivido num tempo difícil de caminhar pelas ruas sem que alguém largue todas as suas preocupações cotidianas e venha me ofender. De pessoas que não gostam de mim porque uso cabelos compridos. O pensamento aí exposto parece mais um mero reflexo da instalação de uma indústria cultural no Brasil. Oscila entre o misticismo e negação de uma vida de integrados ao capitalismoem prol da loucura. Num tom messiânico, profetiza a chegada do jovem como um novo sujeito na sociedade. Nestes anos se dava efetivamente a entrada do público jovem no mercado consumidor. Vagamente, propõe a mistura da erudição com a cultura de massa, nos moldes tropicalistas. Podemos supor que, assim como o cinema udigrudi se propõe em 1969 como “um passo adiante” do Cinema Novo, este Manifesto de2001 evoca um messianismo jovem, e considera a problemática do tropicalismo versus cultura nacional-popular irrelevante. Na Alocução Final há algumas “revelações” mais claras: Cada homem tem seu caminho e sua forma de agir. A nossa foi Krig-Há. Destruiremos, sem compromisso algum, as crenças e opiniões arraigadas durante séculos de cultura. Somos mais parecidos com bárbaros que com Robespierre,...
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